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Durante os dias 11 e 12 de setembro de 2008, foi realizado
o seminário "Universidade, povos Indígenas
e educação cidadã em contextos multiétnicos
na América Latina", na Escola Superior de Tecnologia
da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), coordenado
pela Fundación em Contextos de Pluriculturalidad
y Multilingüismo en América Latina (FUNPROEIB-Andes)
e pela Red Internacional de Estudios Interculturales (RIDEI).
Representou o terceiro e último dos seminários,
realizados com financiamento da Fundação Ford,
que tiveram como objetivo debater a relação
entre povos indígenas, universidade e cidadania,
e instalar processos de diálogo entre líderes
e organizações indígenas, cientistas
sociais, universidades e centros de pesquisa que participam
do desenvolvimento de propostas de cidadania intercultural
e análises das problemáticas socioculturais
latino-americanas.
O primeiro seminário foi realizado em Cuzco, em
parceria com o Centro Bartolomé de las Casas, abrangendo
países andinos. O segundo foi na Guatemala, em parceria
com a GTZ (Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit
GmbH - Cooperação Técnica Alemã),
abrangendo países da América Central e o Caribe.
O seminário, realizado em Manaus, em parceria com
a UEA, tinha por fim discutir e analisar a situação
da educação superior na Região Amazônica
(Brasil, Bolívia e Colômbia). Estes seminários
fazem parte do projeto Acciones de Seguimiento Educación
Ciudadana en Contextos Multiétnicos de América
Latina, coordenado por Luis Enrique Lopez e Alvaro Bello.
Participaram do seminário em torno de 30 pessoas.
Entre elas, aproximadamente 15 eram indígenas, lideranças
de algumas organizações indígenas como
o Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas
(MEIAM) e a COIAB, e de organizações vinculadas
ao governo (Fundação Estadual dos Povos Indígenas
- FEPI, Conselho Estadual de Educação Escolar
Indígena, Coordenação da Educação
Escolar Indígena da SEDUC - Amazonas) e acadêmicos
da UEA e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Do
âmbito acadêmico foram convidados alguns professores
e pesquisadores da Universidade Federal de Roraima (UFRR),
UEA, UFAM e UCDB, envolvidos em programas e projetos de
educação superior indígena (especialmente
em licenciaturas específicas).
Foi notada a ausência de gestores universitários
da UFAM e UEA (à exceção do pró-reitor
de extensão) e de funcionários de alta hierarquia
do governo estadual, assim como da FUNAI.
Fizeram-se presentes lideranças da América
Latina (Bolívia e Colômbia), além de
representantes do RIDEI e do Proeib-Andes.
No início do primeiro dia, houve várias palestras
e na tarde do primeiro dia e durante todo o segundo dia,
se trabalhou em dois grupos, em modalidade de oficina, para
discutir uma série de questões planejadas
na agenda do seminário.
A primeira palestra foi a de Álvaro Bello, coordenador
do projeto junto com Luis Enrique Lopez, quem fez uma síntese
dos seminários anteriores e deu uma série
de explicações a respeito dos objetivos e
da dinâmica do seminário atual. A segunda foi
de Santiago Alfaro, representante do RIDEI, apresentando
as atividades e projetos desta rede de universidades. Já
a terceira explanação foi de Guido Machaca,
do PROEIB-Andes, expondo um panorama da situação
dos povos indígenas e a educação superior
na América Latina e Caribe. Também houve palestras
de professores universitários brasileiros a respeito
das experiências que vêm desenvolvendo vinculadas
à formação de nível superior
de povos indígenas.
No primeiro dia de trabalho em grupo, um deles discutiu
sobre o movimento indígena como novo ator na América
Latina e sua contribuição à redefinição
da cidadania; e o outro sobre o papel da universidade para
garantir cidadania no atual contexto de reconhecimento da
multietnicidade na América Latina.
Todos concordaram que nos países da América
Latina existem programas e não políticas interculturais
na Educação Superior (com exceção
da Bolívia, onde uma importante reforma educativa
está sendo discutida no Congresso). Só se
criam institutos, grupos de estudo, cursos de pós-graduação,
entre outros programas acadêmicos orientados a incluir
à população e cultura indígena
nas universidades, pela iniciativa de alguns professores
e equipes de pesquisa, e o apoio de instituições
de cooperação internacional.
Destacaram-se os debates referentes à situação
na UEA e UFAM em relação às demandas
educativas dos povos amazônicos, evidenciando-se que
não há um diálogo entre estas e os
cursos que essas universidades oferecem, a não ser
os cursos de licenciatura para professores indígenas.
O sistema de cotas implantado pela UEA foi considerado insuficiente
por apenas garantir o acesso e não ter construído
uma proposta de acompanhamento para facilitar a permanência.
E o acesso também foi questionado, já que
as vagas oferecidas nunca são preenchidas completamente
e houve também relatos que apontaram indícios
de corrupção no preenchimento de algumas vagas.
O fato de não se ocuparem todas as vagas foi interpretado
como resultado por um lado, da falta de divulgação
desta política e, por outro, da falta de meios por
parte dos que moram em aldeias para se manter na cidade.
No segundo dia, um dos grupos discutiu o tema da multiculturalidade
e interculturalidade na América Latina e as implicações
para a redefinição da noção
de cidadania. Outro grupo debateu sobre o conhecimento indígena
e as responsabilidades das organizações indígenas
e das universidades para garantir a inclusão deste
no espaço acadêmico em pé de igualdade
com o conhecimento ocidental.
No primeiro grupo foi problematizado o fato de que a interculturalidade,
ainda que esteja reconhecida como um direito por parte dos
países representados no seminário, vem sendo
aplicada mais de forma teórica do que prática,
tanto pelas políticas de governo quanto pelas universidades.
Também se destacou o fato de que a interculturalidade
ainda permanece fechada às ações envolvendo
povos indígenas, quando toda a sociedade deveria
estar contemplada por esta perspectiva. Chamou-se a atenção
sobre as dificuldades que o movimento indígena tem
para efetivar suas demandas e seus direitos assegurados
legalmente e para a necessidade de redefinir suas relações
com o Estado e aprofundar o debate sobre cidadania e interculturalidade.
O segundo grupo concluiu que o conhecimento tradicional
não é reconhecido dentro das instituições
de ensino superior e a maioria dos professores não
está preparada para a troca e diálogo de conhecimentos.
Nesse sentido, destacou-se a importância de capacitá-los
para a tarefa de formar indígenas. Também
chamou-se a atenção para o fato de que já
existem pesquisas e textos elaborados por acadêmicos
indígenas vinculados à sistematização
de conhecimentos tradicionais, mas que raramente são
publicados ou têm circulação.
Houve por parte dos presentes uma dificuldade por construir
um debate em torno das questões colocadas na agenda
do seminário, sobretudo no tocante ao papel dos conhecimentos
indígenas na universidade em vinculação
e diálogo com os chamados conhecimentos ocidentais,
e à discussão sobre os conceitos de interculturalidade
e de cidadania intercultural. Nesse sentido, evidenciou-se
um contraste entre os depoimentos provindos das experiências
no Brasil e os dos participantes da Bolívia e da
Colômbia. Estes últimos mostraram, por exemplo,
estar em um processo de construção de propostas
mais amadurecido por parte do movimento indígena,
como o que se reflete no caso da Colômbia, na criação
da Universidade Intercultural do Cauca, que oferece uma
formação construída em intenso debate
e diálogo com as comunidades de base e é estruturada
numa lógica diferente das universidades tradicionais.
Na declaração final do encontro, colocou-se
que os conceitos de multiculturalidade e interculturalidade
devem ser entendidos e construídos segundo os diferentes
contextos regionais e nacionais, e as ações
e programas ditos interculturais, não devem apenas
ficar fechados ao âmbito escolar, mas abranger outros
espaços públicos. Também enfatizou-se
que existe muito a caminhar para garantir a permanência
dos acadêmicos indígenas, e que as organizações
indígenas devem avançar na construção
de demandas e propostas e efetivar direitos garantidos no
plano legal. Foi mencionada a criação de um
fórum latino-americano permanente para a construção
conjunta de uma proposta de educação superior
intercultural, levando em conta as especificidades e diferenças
regionais e culturais.
Fotos do Seminário
Mesa de encerramento do Seminário: "Universidade,
povos Indígenas e educação cidadã
em contextos multiétnicos na América Latina".
Fala dos organizadores do evento: Alvaro Bello (Universidad
Católica de Temuco), Rogelio Casado Marinho Filho
(pró-reitor de extensão da UEA); Guido Machaca
(PROEIB Andes), Maxim Repetto (UFRR) e Libio Palechor (FUNPROEIB
Andes).
"Seminário sobre o papel da universidade e da
formação acadêmica sob a ótica
das lideranças e acadêmicos indígenas",
organizado pelo CINEP em parceria com a Embaixada da Noruega,
realizado em Brasília - Fala do Primeiro-ministro
Norueguês, Sr. Jens Stoltenberg. Também estão
na foto o presidente da FUNAI, Sr. Márcio Meira;
o presidente do Parlamento Sami, Sr. Egil Olli; e o diretor
do CINEP, Sr. Gersem Baniwa
Fotos do Seminário

Mesa de encerramento do Seminário: "Universidade, povos Indígenas e educação cidadã em contextos multiétnicos na América Latina". Fala dos organizadores do evento: Alvaro Bello (Universidad Católica de Temuco), Rogelio Casado Marinho Filho (pró-reitor de extensão da UEA); Guido Machaca (PROEIB Andes), Maxim Repetto (UFRR) e Libio Palechor (FUNPROEIB Andes).

"Seminário sobre o papel da universidade e da formação acadêmica sob a ótica das lideranças e acadêmicos indígenas", organizado pelo CINEP em parceria com a Embaixada da Noruega, realizado em Brasília - Fala do Primeiro-ministro Norueguês, Sr. Jens Stoltenberg. Também estão na foto o presidente da FUNAI, Sr. Márcio Meira; o presidente do Parlamento Sami, Sr. Egil Olli; e o diretor do CINEP, Sr. Gersem Baniwa
Apresentação de grupo de teatro de jovens do povo Umutina.
Apresentação de grupo de teatro de jovens do povo Umutina.
Apresentação de lideranças indígenas de Equador dos povos Shuar e Achuar.
Mesa de apresentação de alunos indígenas da UNB
Acesso e Permanência dos Estudantes Indígenas
nas Universidades: Comemoração ou Reflexão?
Autor: Edílson Martins Baniwa - Em 14.01.2008
Este texto tem como objetivo fazer algumas reflexões,
críticas e sugestões, sobre a política
do processo de Acesso e Permanência dos Estudantes
Indígenas Universitários no Brasil.
1. Contexto Político:
Para os Povos Indígenas, a Constituição
Federal de 1988 inaugura uma fase de avanços jurídicos,
reconhecendo aos indígenas os direitos originários
sobre as terras que tradicionalmente habitam e as "imprescindíveis
à preservação física e cultural,
necessárias ao seu bem-estar e à sua reprodução
física e cultural, segundo seus usos, costumes e
tradições" (Art. 231). Além de
outros dispositivos jurídicos, a Constituição
Federal assinala ainda que "os índios, suas
comunidades e organizações são partes
legítimas para ingressar em defesa de seus direitos
e interesses" (Art. 232).
A luta pela defesa dos direitos e interesses coletivos dos
povos indígenas no Brasil hoje se dá em todos
os níveis e formas de poder (político, técnico,
acadêmico, científico, etc.). O papel de interlocução
e a ocupação de espaços políticos
representativos assumidos pelas lideranças indígenas
requerem uma capacidade técnica, política
e científica para que essa interlocução
e representação sejam qualificadas, ou seja,
em condições de possibilitar intervenções
e mudanças de políticas desejadas e demandadas
pelos povos indígenas.
Nesses vinte anos de rearticulação indígena,
muitos resultados e avanços foram sendo conquistados:
a) elevação do nível de conscientização
sobre direitos e potencialidades das comunidades para solução
de problemas locais e com isso potencializou-se a capacidade
de elevar o nível de intervenção junto
às diferentes esferas de poder; b) ocupação
de importantes espaços de representação
política (câmaras municipais, prefeituras,
estados, Governo Federal) e controle social (conselhos deliberativos
e consultivos federais, estaduais e municipais relacionados
à saúde, educação, proteção
do meio ambiente, etc.).
Na atualidade, o Movimento Indígena Brasileiro, além
das demandas que motivaram o surgimento das organizações
indígenas, depara-se com novos desafios como: temas
emergentes como o valor da biodiversidade na biotecnologia;
o significado de "projetos de criação
de corredores ecológicos", os danos da chamada
biopirataria aos conhecimentos tradicionais; a importância
das florestas para implementação de Modelos
de Desenvolvimento Limpo MDL, autogestão de
seus territórios; gerenciamento de recursos públicos
e privados; controle social, participação
e intervenção nas políticas públicas.
E, por fim, a capacidade de dominar a complexidade do mundo
branco, a começar pelo próprio modelo de organização
política incorporada pelos povos indígenas.
Neste sentido, é importante que a atuação
das lideranças indígenas no âmbito das
organizações indígenas ou nos espaços
públicos de poder seja cada vez mais qualificada,
capaz de contribuir na melhoria da qualidade de vida das
comunidades indígenas e na defesa de seus direitos.
Cabe ressaltar que, para isso, a estrutura do movimento
indígena, configurando uma rede de organizações,
é um fator positivo, mas que ainda precisa ser melhor
potencializado, tanto por meio da capacitação
e intercâmbio de informações entre atores
locais que assegurem o fortalecimento das organizações
da qual participam, quanto o ambiente sócio-político
do qual fazem parte.
De fato, a capacitação de seus recursos humanos
(lideranças, técnicos e intelectuais) é
a condição para o movimento indígena
continuar avançando na defesa e na garantia dos direitos
dos povos indígenas, e na possibilidade de responder
a novas demandas das comunidades e organizações
indígenas. A capacitação de lideranças
indígenas, sobretudo de dirigentes de organizações,
é uma demanda que aumenta em importância na
medida do próprio crescimento e amadurecimento do
movimento indígena, na sua responsabilidade de exercer
a interlocução e intermediação
entre as comunidades indígenas e a sociedade nacional
e internacional, tanto na defesa dos direitos indígenas,
quanto no acompanhamento e formulação de políticas
que venham atender às suas demandas reais.
2. Algumas Críticas:
A implantação dos cursos superiores por D.
João, a partir de 1808, vai marcar profundamente
os objetivos e práticas educativas no Brasil. As
escolas superiores, em particular, não foram criadas
para produzir conhecimentos científicos e tecnológicos,
visando o bem estar da maioria da população
brasileira (escravos e desempregados), mas sim para repassar
conhecimento adquirido nas grandes metrópoles, aos
filhos de classes privilegiadas, para que eles pudessem
assumir cargos na administração pública
da sociedade colonial. Já se passaram 500 anos, e
este modelo continua atendendo aos interesses de empresários
dos países colonialistas, a idéia de uma educação
voltada para preparo dos jovens para o mercado de trabalho.
Atualmente, há um número grande de estudantes
que recorrem às universidades, no entanto eles não
dispõem das condições básicas
para se manterem nas cidades (despesas com moradia, alimentação,
transporte etc.).
De modo geral as universidades não estão preparadas
para oferecer uma formação que venha a atender
aos interesses dos povos indígenas. Além disso,
inexiste uma bibliografia de livros produzidos por autores
indígenas para servirem como base de consulta e formação.
Os espaços que hoje as universidades estão
dispondo para o acesso e permanência dos índios
nas universidades, em minha opinião, são apenas
para equilibrar a política do Estado Brasileiro,
ou seja, tentar tornar os desiguais aos iguais. Hoje, não
se pensa em coletivo e sim no individualismo.
As cotas, ou outros tipos de acesso às universidades,
não resolvem os problemas, pelo contrário,
muitas vezes acabam agravando a situação,
pois tiram os índios de suas aldeias e muitos não
retornam. Mas o grande desafio mesmo é a manutenção
física, cultural, lingüística e principalmente
econômica, pois a filosofia e a realidade das universidades
são diferentes das nossas.
3. Algumas Sugestões Gerais:
a) Não se de deve esquecer que, para se chegar a
ter hoje esses acessos, cotas ou vagas para os índios
nas universidades, houve uma grande luta do Movimento Indígena
Brasileiro, não das universidades que hoje dispõem
delas e muito menos do Estado brasileiro, por isso, devem
ser valorizadas e reconhecidas por aqueles que usufruem
delas.
b) Deve-se fortalecer ou criar instâncias de controle
social, para que o povo possa cobrar os seus direitos e
também possa participar das discussões e decisões.
c) Faz-se necessário haver e garantir um programa
com o devido orçamento dentro do Plano Plurianual
do Estado brasileiro, para a questão do acesso e
permanência dos índios nas universidades.
d) A formação dos indígenas em instituições
universitárias requer um acompanhamento especial,
para que no futuro possam apoiar suas comunidades, do contrário,
seguiremos com um paradoxo, no qual temos uma demanda de
profissionais que não é suprida, e nossos
estudantes vão sendo formados em uma direção
que não contempla os nossos interesses. Neste sentido,
é importante que as demandas e áreas de interesse
dos jovens estudantes, acadêmicos e pesquisadores
indígenas estejam sincronizadas com as demandas e
interesses das comunidades e do movimento indígena.
4. Consideração Final:
O domínio maior de novos conceitos e estratégias
da sociedade nacional e mundial possibilitará maior
capacidade de gerenciamento dos problemas que afetam as
nossas organizações e comunidades, principalmente
nas tomadas de decisão diante dos conflitos de interesse
próprios do ambiente de contato interétnico,
de modo que os direitos e interesses indígenas sejam
respeitados e preservados.
Enfim, este pequeno texto apresentado aqui não pretende
ser e não poderia ser exaustivo, uma vez que as reflexões,
críticas e sugestões feitas podem ser revistas
na medida em que aumenta o conhecimento sobre a temática.
De qualquer forma, tenho certeza de que este texto poderá
contribuir com o Movimento Indígena, universidades
e Estado brasileiro, para se começar a discutir,
aprofundar e buscar formular uma política de Estado
para o acesso e a permanência dos estudantes indígenas
no ensino superior brasileiro.
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