Trilhas de Conhecimentos - O Ensino Superior de Indígenas no Brasil

Projeto
Público Alvo
Expediente

Artigos
Dissertações e Teses
Referências Bibliográficas
Livros

Notícias
Entrevistas

Núcleo Roraima
Núcleo Mato Grosso do Sul

Galeria Multimídia

Ações Governamentais
Educação Superior Indígena


Links
Lista de Discussão
Newsletter


Fale Conosco
Mapa do Site
Mapa de Downloads


 
Busca:

Breve relatório do "Seminário sobre o papel da universidade e da formação acadêmica sob a ótica das lideranças e acadêmicos indígenas"
Mariana Paladino
Doutora em antropologia-PPGAS-UFRJ
Bolsista do CNPq- Pós-doutor junior
Pesquisadora associada ao Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED-MN)



Entre os dias 16 e 18 de setembro, foi realizado o "Seminário sobre o papel da universidade e da formação acadêmica sob a ótica das lideranças e acadêmicos indígenas", no Centro Cultural de Brasília, organizado pelo CINEP em parceria com a Embaixada da Noruega. O seminário tinha por fim, em vinculação com a comemoração aos 25 anos de atuação do Programa de Apoio aos Povos Indígenas da Noruega, dialogar com as experiências de ensino superior Sami e de outros países da América Latina, assim como debater sobre a situação no Brasil.

No primeiro dia, durante a cerimônia de abertura, houve a fala do Primeiro-ministro da Noruega, Sr. Jens Stoltenberg, do Presidente do Parlamento Sami, Sr. Egil Olli, do presidente da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Sr. Márcio Meira e do Diretor do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas (CINEP), Sr. Gersem Baniwa. Na parte da tarde, houve a apresentação dos objetivos e das atividades que o CINEP vem desenvolvendo e também houve a apresentação das demandas do movimento indígena vinculadas ao ensino superior indígena. Falaram representantes da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), da APOINME (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), da ARPIN-Sul (Articulação dos Povos Indígenas do Sul), da ARPIPAN (Articulação dos Povos Indígenas do Pantanal) e da Aty-Guasú.

Mais tarde, houve a fala de Davi Kopenawa, liderança Yanomami, e de Juarez Fonseca Prado, liderança Terena, sobre o papel dos jovens e da sua formação escolar para o fortalecimento do movimento indígena. Avelina Pancho, do povo Nasa, da Colômbia, falou sobre a situação da educação superior indígena no seu país e expôs a experiência da criação da Universidade Autônoma Indígena Intercultural del Cauca (UAIIN), na qual ela participa como professora e como membro da coordenação. Finalmente, houve a exibição de um filme Sami, com a presença do diretor, Nils Gaup, seguido de um debate.
Durante o segundo e terceiro dia, a coordenação das mesas, relatoria e sínteses iniciais e finais das discussões e debates esteve sob responsabilidade de Maria das Dores Pankararu, doutora em Lingüística. No segundo dia, de manhã, se apresentaram alunos indígenas da Universidade de Brasília (UnB) relatando a situação dos acadêmicos indígenas cotistas dessa Universidade, mostrando dados quantitativos, assim como avaliando o envolvimento da universidade quanto ao atendimento de outras demandas que não apenas as do acesso. Depois se apresentaram duas lideranças indígenas do Equador - Sr. Samuel Yakum do povo Shuar e Sr. Gilberto Wisum Tsamarin do povo Achuar - descrevendo as experiências de educação escolar dos seus povos e analisando a situação da educação superior indígena naquele país. Na parte da tarde, expuseram os representantes do povo Sami: o Sr. Egil Olli apresentou a experiência do Parlamento Sami e descreveu as políticas públicas para a educação superior na Noruega; o Sr. Magne Ove Varsi, coordenador do Centro de Competência Sami, falou sobre as atividades do Centro e, ainda, a Sra. Marit Henriksen, pró-reitora da faculdade Sami, relatou as experiências de ensino superior Sami na Noruega. Por último, houve a exposição de representantes de instituições envolvidas com o fomento ao ensino superior indígena no Brasil: o Sr. Aurélio Vianna, da Fundação Ford, o Sr. Ivan, da Ong OPAN (Operação Amazônia Nativa), a Sra. Nina Paula Laranjeira, Diretora de Programação Acadêmica da UnB e Arildo Terena, acadêmico da UEMS (Universidade Estadual de MatoGrosso do Sul), representando o Programa Rede de Saberes. Não houve representantes do Ministério da Educação (MEC) e nem da FUNAI.
No terceiro e último dia, houve a apresentação de alunos da Universidade Católica Dom Bosco, da Universidade Federal da Grande Dourados e da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul que, além de relatarem suas experiências pessoais, expuseram o perfil dos estudantes indígenas de Mato Grosso do Sul, com base em um levantamento feito pelo Programa Rede de Saberes.

Foi organizado, também, um trabalho em cinco grupos para debater sobre diferentes questões: formação de professores no ensino superior; acesso e permanência dos estudantes indígenas no ensino superior; formação superior de indígenas e a relação com a aldeia; currículo, conteúdo e competências no ensino superior; e políticas públicas para o ensino superior. Na parte da tarde, os grupos continuaram reunidos para, por fim, o coordenador de cada grupo apresentar a síntese das discussões. Houve um debate geral e em seguida o encerramento.
Participaram no seminário cerca de 100 pessoas: 28 acadêmicos de Mato Grosso do Sul (da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, da Universidade Católica Dom Bosco - UCDB, do Centro Universitário da Grande Dourados - UNIGRAN e da Universidade Federal de Grande Dourados), 10 acadêmicos da UnB, jovens do povo Umutina de Mato Grosso que formam um grupo de teatro Umutina, cinco representantes do povo Sami, três representantes de povos indígenas da América Latina, alguns acadêmicos das regiões Norte, Sul e Nordeste e lideranças de várias organizações. Destacou-se a participação dos acadêmicos indígenas, tanto nos espaços estipulados para a exposição, quanto nos espaços de debate.

Apesar das diferenças e diversidades regionais e étnicas presentes, evidenciou-se que as dificuldades que os estudantes atravessam para a permanência na universidade são muito semelhantes. Entre elas, destacaram-se as de tipo econômico, ou seja, os problemas enfrentados para se manter na cidade. As bolsas, tanto as que os acadêmicos recebem da UnB a partir de um acordo entre esta universidade e a FUNAI, quanto as dos acadêmicos da UEMS, por parte do governo estadual, foram avaliadas como insuficientes para atender os custos reais e o índice inflacionário atual. Também houve acordo em assinalar que as universidades têm se modificado pouco apesar das políticas de ação afirmativa que têm implantado, sobretudo no sentido de adequar conteúdos ou programas, assim como na criação de cursos e reformulação de metodologias de ensino em consonância com a realidade dos povos indígenas, suas necessidades e demandas. Ainda foi enfatizado o escasso ou inexistente acompanhamento social e cultural por parte da universidade, de forma a garantir a permanência e o melhoramento da relação dos estudantes com o espaço acadêmico. Avaliou-se que, até hoje, a principal ação das universidades está voltada para equilibrar as desigualdades no acesso, mas pouco tem sido feito para mudar a filosofia e pedagogia individualista promovida neste âmbito. Também foi colocado que as universidades oferecem cursos com base em suas idéias e representações, sem conhecimento do que são as demandas indígenas e sem estabelecer um verdadeiro diálogo com elas.
Por parte de diversos participantes, ao longo do seminário, expressou-se uma forte demanda para que os conhecimentos indígenas sejam incorporados aos programas curriculares da universidade. Esta apareceu como espaço privilegiado de sistematização, fortalecimento e resgate dos conhecimentos indígenas. Não se falou na criação de outros espaços ou instâncias que poderiam cumprir esta função. Também foi enfatizada a importância de dialogar com os conhecimentos ocidentais. No entanto, não se aprofundou sobre como fazer para que esta relação possa se dar em pé de igualdade e sobre que tipos de conhecimentos esperam receber da universidade. Falou-se de uma forma bastante genérica sobre estas questões.
Evidenciou-se uma tensão na vinculação dos acadêmicos indígenas com as lideranças locais ou tradicionais e a comunidade. Alguns expuseram a desconfiança que existe por parte delas a respeito de sua formação, das pesquisas desenvolvidas e do futuro papel que desempenharão ao se formar. Vários estudantes expressaram sentir falta de um maior acompanhamento e atenção por parte das lideranças, de maior apoio enquanto estão longe, estudando. As lideranças presentes, pelo contrário, sentiram falta de uma maior participação dos jovens nas organizações e no retorno à comunidade. No entanto, todos concordaram na importância de melhorar a relação e o diálogo e aprofundar a vinculação dos acadêmicos com as demandas e projetos das comunidades.




© 2007 Todos os direitos reservados.Este material não pode serreescrito ou redistribuído sem prévia autorização.