|
Síntese do relatório
Na Argentina, o acesso e permanência dos indígenas
no ensino superior não tem sido parte importante
da agenda educativa do governo. A diferença da discussão
que vem ocorrendo em outros países da América
Latina, como Bolívia, Peru, Chile, e mais recentemente
no Brasil, sobre ações afirmativas ou compensatórias
para criar condições de eqüidade e inclusão
destes povos no ensino superior, na Argentina não
existe um debate de tais características. Talvez
isso se deva ao modelo universitário predominante
que defende fortemente o caráter gratuito, laico
e de acesso universal, do qual decorre o suposto da igualdade
de oportunidades para todos e, portanto, o escasso questionamento
sobre a inclusão de segmentos de setores sociais,
culturais e etnicamente diferenciados.
Aparentemente, qualquer estudante poderia ter acesso às
universidades públicas, à exceção
de alguns cursos em várias delas, que têm implantado
desde meados da década de 1990, alguns mecanismos
de seleção dos seus estudantes, sobretudo
em cursos com muita demanda como são os de medicina
e de direito. Pesquisadores do âmbito universitário,
principalmente pedagogos e sociólogos, chamam a atenção
para o fato de que a seleção no caso da Argentina
não está colocada no ingresso - como é
o caso do Brasil, pela existência do vestibular -
mas na permanência. É, sobretudo nos períodos
de avaliação (exames parciais e finais), quando
as diferenças nas trajetórias escolares se
tornam especialmente patentes do possível êxito
ou fracasso acadêmico. Cabe aclarar que essas trajetórias,
também de forma diferente do caso brasileiro, não
estão marcadas pela divisão público/particular.
Quer dizer, não ocorre a relação: acesso
a escolas de ensino particular – melhor desempenho
posterior durante a realização de cursos universitários.
Contudo, esse quadro está se modificando pela grande
crise que atravessa a escola pública.
Como assinala Sigal (1993, p. 268) na Argentina acontece
uma situação paradigmática: coexiste
um modelo de acesso de massa no nível superior, com
uma crescente crise nos níveis de educação
mais baixos. Isto explica a coexistência de taxas
altas de evasão escolar no ensino fundamental, com
taxas de educação superior elevadas. Este
quadro procurou ser modificado no nível das políticas
educativas no ano de 1993, com a implementação
do Plano Social Educativo que envolvia uma série
de ações de tipo compensatório, onde
foram incluídos os povos indígenas. Recentemente,
a nova Lei Nacional de Educação Nº 26.206
(de 14 de dezembro de 2006) estabeleceu a obrigatoriedade
do ensino médio, portanto deve-se esperar que isso
reflita nos próximos anos num acesso ainda maior
ao ensino superior por parte de segmentos que nem sequer
tinham acesso ao nível médio.
A pesquisa realizada teve como objetivo conhecer a situação
de acesso e permanência dos povos indígenas
da Argentina ao ensino superior, sobretudo, ao ensino universitário1.
O trabalho foi motivado pela inexistência de informação
sobre o tema nesse país. A escassa, ou inexistente
problematização sobre a presença de
estudantes indígenas no nível superior, evidenciou-se
em várias instâncias e situações.
Por um lado, percebemos isso durante a busca de fontes bibliográficas
que tratassem do assunto. Por outro lado, nas entrevistas
realizadas com diversos atores das universidades que conseguimos
abordar (pró-reitores e decanos, chefes de departamento,
professores e funcionários das secretarias de assuntos
estudantis, acadêmicas e de extensão universitária,
entre outros).
Realizamos um levantamento em bibliotecas importantes,
como a Biblioteca Nacional; a Biblioteca Nacional del Maestro,
do Ministério de Educação, Ciência
e Tecnologia (MECyT); a biblioteca da Facultad Latinoamericana
de Ciências Sociais (FLACSO); a biblioteca da Faculdade
de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Buenos
Aires, e o material encontrado sobre educação
superior indígena se referia sempre a outros países
latino-americanos. Cabe aclarar, que existe um único
estudo sobre a temática realizado por Carlos Mundt,
a pedido do Instituto Internacional para la Educación
Superior em América Latina y el Caribe (IESALC) -
“Situación de la Educación Superior
Indígena em la Argentina” - 2004. Trata-se
de um estudo muito breve e básico, que utiliza poucas
fontes de informação e é resultado
dessa contratação pontual do autor como consultor
da UNESCO. Ele não pesquisava anteriormente essa
temática.
O que existe são pesquisas e bibliografia sobre
as características do sistema universitário
argentino e sobre a problemática da evasão
estudantil de uma forma geral, voltadas ao estudo dos fatores
sociais e econômicos envolvidos, e à identificação
de setores mais vulneráveis, baseados em critérios
de classe e gênero, mas não consideram a variável
étnica.
Por outro lado, existem equipes de pesquisa e extensão
dentro de algumas universidades públicas federais
preocupadas com a educação escolar indígena.
Estas, contudo, focalizam o ensino fundamental, realizando
estudos sócio-lingüísticos, acompanhando
experiências, apoiando a produção de
material didático intercultural e bilíngüe
e capacitando auxiliares e docentes indígenas. Mas
não estudam a questão do ensino superior.
A partir da constatação da escassa informação
sobre a situação de acesso e permanência
dos povos indígenas no ensino superior, tentamos
fazer um levantamento geral e o mais abrangente possível,
coletando dados tanto em órgãos de governo,
no âmbito universitário, como em ONGs e organizações
indígenas.
A pesquisa apontou para diferentes tipos de informações:
- Identificação de políticas públicas
e ações governamentais voltadas para a assistência
educativa dos povos indígenas no nível superior.
- Ações ou programas universitários
voltados a atender certas demandas dos povos indígenas
no tocante à educação escolar.
- O estudo das trajetórias escolares e sociais
de alguns estudantes indígenas universitários,
e as perspectivas de lideranças de organizações
indígenas sobre o sentido do acesso ao nível
superior, e sobre a formação profissional
e técnica para os projetos de futuro desejados por
elas.
As universidades escolhidas para a coleta de informações
foram: a UBA (Universidad de Buenos Aires), a Universidad
Nacional de Formosa e a Universidad del Nordeste –
a primeira localizada na província de Formosa e a
segunda nas províncias de Chaco e Corrientes, no
nordeste do país– e a Universidad Nacional
del Comahue, nas províncias de Neuquén e de
Rio Negro, no sul do país. Considerei pertinente
essa escolha pelo fato de estarem localizadas em regiões
ou províncias com significativa presença de
população indígena. Em Neuquén
e Rio Negro vive o povo Mapuche, no Chaco, os Qom (Toba),
Wichi e Mocovi e, em Formosa, os Qom, Wichi e Pilagá.
Esta escolha permitiu evidenciar grandes diferenças
entre as situações analisadas. Estas se expressaram
não somente em relação às grandes
desigualdades regionais no acesso e permanência das
populações indígenas na universidade
e nos diferentes tipos de dificuldades enfrentadas por elas,
mas também em perspectivas muito distintas sobre
o sentido de realizar estudos de nível superior,
em diversas trajetórias e formas de se relacionar
com o âmbito universitário.
O trabalho de campo realizado também permitiu visitar
e conhecer o único curso de nível superior
específico para indígenas na Argentina: o
Centro de Investigación y Formación para la
Modalidad Aborigen (CIFMA), instituição localizada
na cidade de Presidencia Roque Saenz Peña, na província
do Chaco, reconhecida pelo Ministério de Educação
como Instituto Superior de Formação Docente
desde 1994. Existem, também, outros programas de
formação de docentes indígenas, mas
de ensino médio2.
Durante a pesquisa realizada nas universidades anteriormente
mencionadas, constatei um grande desconhecimento sobre a
presença de estudantes indígenas. Isso me
chamou especialmente a atenção no caso de
algumas cátedras ou equipes de pesquisa voltadas
à temática indígena; ou no caso de
alguns centros e organizações de estudantes
que, embora apóiem ou promovam algumas atividades
vinculadas a povos indígenas, não tinham problematizado
a questão da existência de alunos indígenas
e sua situação no âmbito universitário.
Também observei que entre os próprios estudantes
indígenas existia um escasso reconhecimento ou explicitação
de sua identidade étnica. Pude conhecê-los
através de referências e contatos proporcionados
por professores e funcionários universitários,
por lideranças e membros de organizações
indígenas e também por funcionários
do governo. Registrei discursos e posições
bem diferentes entre os estudantes indígenas. Por
um lado, existe um segmento que tem uma militância
importante em organizações indígenas:
geralmente seus parentes próximos são lideranças,
e no espaço da universidade destacam essa identidade,
questionando tanto os conteúdos curriculares e metodologias
utilizados nas disciplinas, quanto as relações
de poder e discriminação existentes. Por outro
lado, os jovens que não participam de organizações
indígenas e não têm alcançado
o nível de empoderamento e de valorização
cultural que estas aportam, em geral não se reconhecem
como indígenas e tentam passar despercebidos entre
os estudantes não-indígenas. No entanto, são
identificados como indígenas (por professores, funcionários,
e os próprios colegas) com base em certos critérios,
como são o aspecto físico, o sobrenome (sobretudo,
os Mapuches e os Kollas que possuem sobrenomes nas suas
línguas), a forma de falar diferente, ou pela comunidade
de origem.
É complicado desenvolver aqui os motivos pelos quais
alguns dos estudantes que tivemos a oportunidade de conhecer
não se identificavam como indígenas. Para
aprofundar isso, a pesquisa precisaria ter um investimento
de tempo maior. Contudo, considero importante levar em conta
tanto o medo do preconceito e da rejeição
que tal reconhecimento poderia causar, quanto às
próprias imagens estereotipadas internalizadas sobre
o ser indígena. Por exemplo, alguns estudantes nos
disseram que seus avós sim são indígenas,
mas eles já não, porque não falam a
língua, não moram na comunidade ou não
trabalham a terra. Participam de um imaginário ainda
forte no país, que associa o indígena ao passado,
ao espaço rural ou a situações atuais
de pobreza. Desconsideram as profundas mudanças que
atravessaram os povos indígenas sob processos complexos
de colonização e dominação.
Também desconhecem a relevância populacional
indígena (600.329 pessoas para o Instituto Nacional
de Estadística e Censos de la República Argentina
– INDEC, e mais de 1 milhão para o ENDEPA -
Equipo Nacional de Pastoral Aborigen - e para o INAI - Instituto
Nacional de Asuntos Indígenas – além
de representarem entre 2 e 4 % do total da população
nacional), e o fato que destes, 70% moram na cidade.
Embora não existam registros por parte das universidades,
nem por parte das organizações indígenas,
sobre quantos estão estudando no nível superior,
pode-se chegar a uma estimativa a partir da Encuesta Complementária
de Povos Indígenas - ECPI, realizada nos anos de
2004-2005, pelo INDEC, que considerou a variável
educativa. Na faixa de 20 a 29 anos, que é a que
se considera que deveria estar na universidade, apenas 10
% em média, cursam o nível superior.
Observa-se, ainda, uma grande desigualdade regional e étnica.
Por exemplo, no caso dos Avá Guarani que moram nas
províncias de Jujuy e Salta, menos de 2% dos que
estão na faixa de idade de 20 a 29 anos cursam o
ensino superior. Já, no caso dos Kolla dessas províncias,
16% dos que estão nessa faixa estão no ensino
superior e 2% já se formaram. No caso dos Mapuche,
que moram nas províncias do sul argentino, em torno
de 12% dessa faixa de idade está no ensino superior.
Em alguns grupos, menos de 1% dos jovens que estão
na faixa de idade de 20 a 29 estão no ensino superior
e, em outros, chega a 15%.
Esses dados estatísticos permitem constatar que
o acesso dos indígenas, se comparado a outros segmentos
da população argentina da mesma faixa de idade,
é menor (segundo dados do INDEC, do mesmo período
da ECPI, em torno de 45% da população nacional
que está na faixa de idade de 20 a 29 anos cursam
o ensino superior). A isso, se acrescenta a questão
da invisibilidade dos que estão estudando, tratada
anteriormente. Contudo, esta situação está
mudando a partir da implementação de algumas
políticas públicas, que embora sejam questionadas
por alguns, por terem sido criadas de cima para baixo, sem
a participação das organizações
indígenas, e sem a devida divulgação,
têm interpelado as instituições de ensino
superior para repensar a questão da diversidade no
seu interior. Elas têm que difundir e dar publicidade
a esses programas, e começar a reconhecer os seus
alunos indígenas e se aproximar de suas trajetórias
particulares.
Estes programas são dois, e ambos consistem em bolsas
de estudo. Ou seja, não há, por parte do governo
argentino, outras ações de apoio à
permanência no ensino superior que, para além
do econômico, apontem para o suporte acadêmico
dos alunos indígenas.
Um deles é o Programa Nacional de Bolsas Universitárias
(PNBU), que tem um subprograma de bolsas só para
indígenas. É coordenado pela Secretaria de
Políticas Universitárias do Ministério
de Educação, Ciência e Tecnologia e
foi criado em 1996.
O outro se chama “Proyecto Becas de Formación
Docente para Estudiantes Indígenas”, e consiste
no apoio através de bolsas para indígenas
que ingressam ou estão fazendo cursos de formação
docente (em institutos de formação docente
de nível superior). É coordenado pelo Programa
Nacional de Educação Intercultural Bilíngüe3
e pelo Instituto Nacional de Formação Docente4,
do Ministério de Educação, Ciência
e Tecnologia, foi criado em 2006 e começou a funcionar
em 2007. Os dois programas são financiados com verbas
do Tesouro Nacional.
Esses programas são criticados por algumas organizações
indígenas por não terem sido suficientemente
divulgados e, portanto, muitos estudantes não solicitam
bolsas porque não sabem de sua existência.
Outro dos motivos apontados para a baixa demanda é
que, no caso das bolsas do PNBU, exige-se o preenchimento
de formulário de inscrição pela internet,
ferramenta tecnológica a qual muitos não têm
acesso. De fato, constata-se pouca demanda destas bolsas,
já que apesar do programa não estabelecer
uma restrição na quantidade de bolsas outorgadas
a indígenas – de forma diferente do que ocorre
nas que concede a alunos de baixos recursos – no ano
de 2007, apenas 103 foram do Subprograma Indígena.
Estas bolsas foram distribuídas em 21 universidades,
todas federais. As que mais têm bolsistas são
as universidades do Noroeste Argentino: Universidad Nacional
de Tucuman (19), Universidad de la Rioja (13) e Universidad
de Jujuy (12), e as que menos têm são as do
centro e nordeste do país, à exceção
da Universidade de La Plata, que têm seis bolsistas.
O outro programa (Proyecto Becas de Formación Docente
para Estudiantes Indígenas), embora seja de mais
recente implementação, do ano de 2007, outorgou
no ano passado 867 bolsas para estudantes indígenas
de 64 institutos superiores de formação docente.
Também alguns estudantes indígenas universitários
com quem tivemos contato, questionaram o fato de que os
dois programas exigem como requisito que o estudante demonstre
a sua etnia através da apresentação
de uma carta de uma liderança de comunidade indígena
reconhecida pelo Instituto Nacional de Assuntos Indígenas.
Acontece que muitas são de recente formação,
por processos de migração e etnogênese
que atravessaram, e ainda não têm o registro.
Há, ainda, casos de grupos de parentesco que moram
nas cidades e não são reconhecidos como comunidade.
Portanto, o fato do Estado determinar o reconhecimento do
que é ou não é indígena, é
criticado como uma medida paternalista e impositiva de fiscalização.
Outra das críticas apontadas a estes programas é
o fato de que têm sido implementados sem o devido
diagnóstico e estudo da situação dos
estudantes indígenas, da realidade em que vivem e,
portanto, não levam em conta as necessidades econômicas
concretas atravessadas por eles. O auxílio econômico
é avaliado como escasso, não cobre as despesas
dos estudantes e ainda há a demora na liberação
dos recursos.
O impacto mais significativo destes programas, assinalado
por diversos atores, foi sem dúvida a visibilidade
da identidade indígena que eles têm promovido.
Vários casos nos foram relatados de pessoas que receberam
as bolsas que - motivadas pela busca de “provas de
identidade” que estas exigem - começaram a
revisar sua identidade, pesquisar suas origens, visitar
os lugares de nascimento dos avós, entre outras ações.
Sobretudo no caso dos jovens que se criaram na cidade, filhos
de migrantes das comunidades rurais.
As situações enfrentadas pelos povos indígenas
para o acesso e a permanência são muito diferentes
segundo as etnias e regiões. No caso dos que moram
em comunidades rurais, especialmente no Chaco, Formosa,
Salta, Jujuy e no Sul Argentino, as distâncias são
um fator que dificulta a continuidade dos estudos. Muitos
tiveram que estudar em escolas-internatos; outros viajaram
diariamente longas distâncias. Não acontece
o mesmo com a população indígena urbana,
localizada próxima a diversas ofertas educativas.
Contudo, os estudantes que moram na cidade também
atravessam dificuldades econômicas para compra de
textos e fotocópias, para pagar o transporte, já
que geralmente vivem nos bairros da periferia. Também
existe o problema da dificuldade lingüística
e do entendimento dos códigos do sistema universitário.
Para os estudantes de certos povos, como os Toba, Wichi,
Mbyá Guarani, Pilagá, que falam predominantemente
sua língua materna, o conhecimento do espanhol e,
mais ainda, o utilizado no âmbito universitário,
é insuficiente e precário.
É importante mencionar o fato de que a formação
universitária não é um tema da agenda
das organizações indígenas argentinas,
já que as prioridades são o território,
o controle dos recursos naturais e a saúde. É
promovida, também, uma educação bilíngüe
e intercultural, mas a ênfase está direcionada
ao ensino fundamental. Para as organizações
indígenas a prioridade é que exista um ensino
fundamental de boa qualidade e adequado à realidade
atual dos povos indígenas. As escolas localizadas
em áreas rurais são de baixa qualidade em
comparação às escolas urbanas. Os professores
(não-indígenas) dão pouca importância
ao ensino das crianças indígenas, porque entendem
que o futuro delas vai ser só o de ficar na comunidade,
fazendo trabalhos pouco qualificados. Esse fato tira as
aspirações dos jovens para continuar o ensino
médio, porque sabem que concorrem em desvantagem
em relação aos que tiveram um ensino de maior
qualidade.
É importante também destacar, que existem
diferenças entre os grupos que ingressam na universidade.
Para alguns, como é o caso dos Toba e Wichi, se constatou
que quem tem acesso, aliás, uma pequena minoria,
são filhos de lideranças, sobretudo de organizações
indígenas e de pastores ou membros destacados de
igrejas evangélicas indígenas. Já no
caso de outros povos, como são os Kolla e os Mapuche,
não se observa essa relação, e a trajetória
familiar não aparece como determinante exclusiva
da possibilidade de estudar.
Em relação aos cursos escolhidos pelos estudantes
indígenas, também existe uma grande diversidade,
embora a maioria esteja nas faculdades de Educação,
e nas de Ciências Sociais e Humanas (Comunicação
e Jornalismo; Sociologia, Direito, História, Geografia,
Letras e Antropologia). Observamos no caso dos Mapuche de
Neuquén e Rio Negro uma clara escolha por cursos
que acreditam poder fornecer “armas” para suas
formas de organização e luta. Sobretudo os
jovens da “Coordinadora de Organizaciones Mapuche”
de Neuquén, e da organização “Mapurbe”
da cidade de Bariloche, que centram suas atividades nas
áreas de comunicação - rádios
comunitárias, jornais e sites da internet - escolhem
cursos da Faculdade de Ciências Sociais da Universidad
del Comahue. Para eles, é preciso se apropriar de
certas ferramentas proporcionadas pelos cursos que realizam
para desenvolver ações com certo nível,
e poder profissionalizar seu trabalho. No entanto, demonstram
ser seletivos e críticos quanto aos conhecimentos
recebidos. A formação universitária
por si só não aparece como uma meta desejada
por eles, pois questionam o modelo individualista e o imaginário
da mobilidade social vigente neste nível de ensino.
Já para outros estudantes, as escolhas realizadas
devem-se mais às possibilidades concretas que se
lhes apresentam, do que a vocações anteriores.
Como é o caso de alguns jovens Toba e Wichi que estão
estudando em cursos de Medicina e Enfermagem em Cuba. Cabe
chamar a atenção para o fato que constatamos
de que há mais indígenas do Chaco estudando
em Cuba, do que na Universidad del Nordeste, localizada
nessa província. São em torno de vinte indígenas
do Chaco que estudam na Faculdade Latino-americana de Ciências
Médicas em Cuba, alguns já prestes a se formar.
Segundo pudemos ter conhecimento, muitos deles estão
transitando uma experiência de valorização
da identidade e de formação política
da qual careciam anteriormente. Ao contrário do que
foi relatado antes no caso dos Mapuche, aqui o acesso à
formação universitária aparece como
a facilitadora desse processo.
Com respeito aos indígenas já formados, observamos
que, em geral, estão comprometidos com algumas demandas
e necessidades do movimento indígena. Alguns profissionais,
de forma independente, promovem no âmbito urbano uma
série de atividades de divulgação da
realidade indígena, de valorização
das culturas e de ensino das línguas indígenas
em centros comunitários, e também em diversos
estabelecimentos escolares de nível fundamental,
médio e superior. Entre estes últimos, cabe
destacar os professores indígenas que demandaram
um espaço para poder ensinar línguas indígenas
nas universidades, como é o caso do que acontece
na UBA e na Universidade Nacional de la Matanza, localizada
na cidade de San Justo, província de Buenos Aires.
Existem os cursos de Quechua, Guarani e Mapuche, que além
de servir a um público geral interessado, conta com
os jovens de povos indígenas que querem recuperar
ou aprofundar o conhecimento das suas próprias línguas.
É importante mencionar a atuação de
advogados indígenas reunidos na organização
“Comissión de Juristas Indígenas de
la República Argentina” (CJIRA), que defendem
os direitos indígenas em nível nacional e
internacional, e já têm obtido vitórias
em vários juízos importantes de demanda territorial.
Eles destacaram o fato de que, além de uma série
de dificuldades atravessadas durante seus estudos, se confrontaram
com um conhecimento do direito romano individualista, que
não considerava outras formas de saber e realidades
sociais. Tiveram, então, que aprender nas suas práticas
profissionais, como lidar com a defesa de direitos coletivos,
pelo seu próprio esforço e criatividade, e
graças a uma experiência prévia de participação
no movimento indígena.
O relatório, na íntegra, consta das seguintes
partes:
Em uma primeira parte, se descrevem as leis indigenistas
e a Lei Nacional de Educação no tocante a
povos indígenas.
Em uma segunda parte, se caracteriza quantitativamente
a população indígena argentina, com
ênfase nos dados estatísticos sobre níveis
de escolarização alcançados.
Em uma terceira parte, se descrevem as políticas
educativas, e especialmente programas e projetos voltados
à atenção educativa dos povos indígenas
no ensino superior.
Em uma quarta parte, se analisam as perspectivas e demandas
de algumas organizações indígenas vinculadas
à educação escolar.
Em uma quinta parte, se analisam algumas situações
regionais sobre as condições de acesso e permanência
de alguns povos indígenas: com ênfase no que
acontece na Universidad del Comahue e Universidad Nacional
de Formosa.
Por fim, se conclui com algumas considerações
gerais e perguntas.
|