Prezado assinante,
Nesta edição do informativo do portal
Trilhas
de Conhecimentos os leitores conhecerão a nova
etapa do Programa de Bolsas do Projeto Vigisus - Funasa, implementado
em 2006, que tem como objetivos a manutenção de
estudantes indígenas da área da saúde em
universidades que possuem estrutura específica para um
acompanhamento diferenciado e o fomento de políticas
públicas de acesso e manutenção de indígenas
nas universidades.
A matéria seguinte é a apresentação
da dissertação "Diversidade na Universidade:
o BID e as políticas educacionais de inclusão
étnico-racial no Brasil", da mestre em Antropologia
pelo PPGAS/Museu Nacional e pesquisadora associada do Projeto
Trilhas de Conhecimentos Nina Paiva Almeida. O trabalho tem
como objeto de análise o Programa Diversidade na Universidade,
implementado a partir de um contrato de empréstimo
firmado entre a República Federativa do Brasil, representada
pelo Ministério da Educação, na qualidade
de contratante, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento,
o BID. O Programa Diversidade na Universidade foi executado
entre os anos de 2002 e 2007, e tinha como principal objetivo
contribuir para a promoção de acesso de negros
e indígenas no ensino superior. Por fim, temos o anúncio
do lançamento do Observatório de Direitos Indígenas
ODIN, em Brasília.
Tenham uma boa leitura!
Programa de Bolsas Vigisus entra em nova etapa
O seminário "Estratégias e Desafios: Acesso
ao Ensino Superior para os Povos Indígenas", realizado
em março último, em Brasília, trouxe
importante contribuição para o alcance dos objetivos
propostos pelo Programa de Bolsas do Projeto Vigisus - Funasa.
O evento possibilitou o diálogo entre as diversas universidades
parceiras do Vigisus e outras instituições de
ensino superior, discutindo estratégias para a inclusão
social nas universidades públicas brasileiras.
O encontro foi organizado com o objetivo de promover a divulgação
e o acompanhamento do Programa de Bolsas para estudantes universitários
indígenas. Ele envolveu a troca de experiências
e conhecimentos sobre os desafios enfrentados pelos estudantes
e pelas instituições que possuem um programa
específico para a inclusão de estudantes universitários
indígenas.
Como produto do Seminário, foi elaborado um documento
encaminhado para as autoridades competentes, que sinaliza
para a necessidade de uma política pública de
acesso e manutenção no Ensino Superior para
povos indígenas, bem como para a importância
da continuidade e ampliação do Programa de Bolsas
do Projeto Vigisus - Funasa.
Conheça o Programa
O Programa de Bolsas do Projeto Vigisus - Funasa, implementado
em 2006, tem como objetivos a manutenção de
estudantes indígenas da área da saúde
em universidades que possuem estrutura específica para
um acompanhamento diferenciado e o fomento de políticas
públicas de acesso e manutenção de indígenas
nas universidades. O Programa teve início com a parceria
de 07 universidades públicas brasileiras, contemplando
30 estudantes indígenas de 16 etnias: Xavante, Pareci,
Umutina, Chiquitano, Bakairi, Guarani, Kaingang, Terena, Pataxó,
Baré, Bororo, Fulni-ô, Atikun, Karajá,
Macuxi e Wapichana.
Para a implementação do Programa foram definidos
critérios para a concessão das bolsas que delimitam
as responsabilidades dos estudantes e o compromisso com as
comunidades indígenas. Foram estabelecidos, também,
critérios para as universidades parceiras: elas devem
ter ou criar programas de acesso específico e diferenciado,
com acompanhamento pedagógico aos estudantes indígenas
durante a formação. O Programa prevê,
ainda, que os estudantes indígenas atendidos não
podem receber bolsas de outras instituições
a fim de evitar uma concentração de recursos.
Como funciona
O acompanhamento pedagógico visa garantir resultados
satisfatórios no desempenho acadêmico dos estudantes
indígenas. A universidade parceira disponibiliza um
professor/coordenador que fará as interlocuções
com as diversas áreas do curso, proporcionando aos
estudantes indígenas um apoio diferenciado na sua formação.
A elaboração de uma política de acompanhamento
dos estudantes indígenas no sistema de ensino superior
deve ser múltipla, pois envolve aspectos relativos
às políticas sociais, aos procedimentos administrativos
e às ações no campo da produção
cultural e científica. Essa diretriz de atuação
ampla, voltada para a formação interdisciplinar
e articulada com a reflexão sobre questões sociais,
culturais e ambientais das comunidades indígenas, tem
orientado os programas criados pelas universidades que atendem
aos critérios do Programa de Bolsas.
Resultados
Neste sentido, o Programa de Bolsas fomentou estas discussões
nas universidades parceiras, abrindo novos campos de discussão
da problemática do acesso e manutenção
de estudantes indígenas no ensino superior, conforme
relatado nos documentos produzidos pelas universidades. Pretende-se
que a formação de profissionais de saúde
indígenas (medicina, enfermagem e odontologia) impacte
positivamente o Subsistema de Saúde Indígena
com mão-de-obra adequada e comprometida com as especificidades
dessas populações.
De acordo com Tânia Ferreira, do Vigisus-Funasa, "é
importante destacar que o ingresso dos estudantes indígenas
nos espaços acadêmicos não se restrinja
à simples abertura de vagas ou de programas de acesso,
mas se traduza em questionamentos e numa maior sensibilidade
das instituições universitárias com essa
clientela". Ela diz ainda que "só assim poderemos
efetivamente consolidar a tão propagada inclusão
social numa perspectiva de diálogo com a diversidade".
Faça
o download das Conclusões dos Grupos de Trabalho do
Seminário
"Diversidade na Universidade: o BID e as políticas
educacionais de inclusão étnico-racial no Brasil"
Nina Paiva Almeida, mestre em Antropologia pelo PPGAS/Museu
Nacional; pesquisadora associada do Projeto Trilhas de Conhecimentos
A dissertação tem como objeto de análise
o Programa Diversidade na Universidade, implementado a partir
de um contrato de empréstimo firmado entre a República
Federativa do Brasil, representada pelo Ministério
da Educação, na qualidade de contratante, e
o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID. O Programa
Diversidade na Universidade foi executado entre os anos de
2002 e 2007, e tinha como principal objetivo contribuir para
a promoção de acesso de negros e indígenas
no ensino superior, a partir do desenvolvimento de quatro
componentes: 1) realização de estudos e pesquisas
para subsidiar a formulação de políticas
públicas sobre diversidade étnico-racial; 2)
fortalecimento institucional do Ministério da Educação
para trabalhar com a temática da diversidade; 3) apoio
a cursos pré-vestibulares que tivessem corte racial
na definição de sua população-alvo,
que neste contexto eram denominados Projetos Inovadores de
Cursos (PIC); 4) comunicação social, para que
as realizações do Programa fossem conhecidas
no interior do MEC e também por setores interessados
da sociedade civil.
O Diversidade, como o programa é chamado pelos seus
gestores, foi concebido em 2002, durante a gestão do
então ministro Paulo Renato de Souza na pasta da Educação,
no governo Fernando Henrique Cardoso, na esteira dos debates
sobre as possibilidades de adoção de políticas
de ações afirmativas, especialmente as cotas
para a facilitação do acesso de negros no ensino
superior, que vinham se ampliando no Brasil.
O debate sobre as cotas, por sua vez, ganhou especial força
a partir da realização da Conferência
Mundial contra o Racismo, a Xenofobia e a Intolerância
Correlata, das Nações Unidas, realizada em 2001,
em Durban, na África do Sul. Os documentos resultantes
desta conferência, dos quais o Brasil é signatário,
recomendavam claramente a adoção deste tipo
de política, que passava a configurar, naquele mesmo
período, como uma das bandeiras do movimento negro
no Brasil.
No entanto, alguns setores do governo eram absolutamente contrários
às cotas e, dentre eles, estava o Ministro da Educação,
Paulo Renato. Foi daí que surgiu a proposta do Programa
Diversidade na Universidade, que deveria auxiliar na promoção
do acesso de negros e indígenas no ensino superior,
a partir do apoio a cursinhos pré-vestibulares que
tivessem corte racial em sua população-alvo.
Ao tempo em que atendia aos debates que vinham ocorrendo no
plano internacional, o Programa, com este modelo, atendia
também às demandas de setores do movimento negro
e de seus associados (seja em igrejas, ONGs ou universidades),
que vinham desenvolvendo o modelo dos cursos pré-vestibulares
para negros.
Contudo, como o contrato de empréstimo entre o MEC
e o BID foi assinado em dezembro de 2002, a poucos dias do
fim do governo FHC, o programa foi quase inteiramente implementado
durante o governo Lula. O programa estava enquadrado numa
categoria do BID chamada innovation loan, que destinava recursos
de pequena monta a projetos pequenos, com curto tempo de execução,
que se justificava pelo objetivo de alavancar uma determinada
temática na área das políticas governamentais
e, por isso, é considerado inovador. Quer dizer, trata-se
de um programa de pequeno porte, que contou com poucos recursos
(na ordem de US$ 5 milhões provenientes do BID e US$
4 milhões da contrapartida local) e que foi executado
em 5 anos (sendo que inicialmente estava previsto que fosse
em três).
Todavia, a importância do Programa está no fato
de que ele foi considerado, em ambas as instituições
envolvidas, o MEC e o BID, como um marco no desenvolvimento
de ações ligadas à temática da
diversidade étnica e racial.
Busquei construir um panorama amplo, a partir do Diversidade,
de como vem se desenvolvendo todo este debate, centrado na
noção de diversidade, no campo das políticas
governamentais. Nos termos em que tem se dado, é um
debate bastante recente, ainda que algumas vezes pareça
reatualizar uma série de questões nada novas
em termos de discussões sobre raça e etnia,
e ainda em curso e, por isso mesmo, difícil de ser
mapeado. No entanto, minha tentativa foi a de dar um primeiro
passo neste sentido.
Construí a dissertação em quatro capítulos:
- No primeiro, foi onde procurei compreender o desenvolvimento
da temática da diversidade em ações do
BID, banco multilateral de fomento ao desenvolvimento nos
países da América Latina e do Caribe. Para isso,
procurei mapear um pouco do funcionamento da instituição,
de sua atuação no Brasil e no setor de educação
e dos usos de algumas categorias presentes nos documentos
referentes ao Programa, tais como diversidade, inclusão
e exclusão social e combate à pobreza. Neste
momento, me voltei também para uma breve análise
sobre o desenvolvimento da temática da diversidade
étnica e racial, no âmbito do direito internacional,
a partir de um mapeamento das principais conferências
realizadas pelo Sistema ONU sobre o tema.
- No segundo capítulo, abordei o desenvolvimento do
Programa Diversidade na Universidade ao longo de seus 5 anos
de duração e procurei mapear os principais debates
que tiveram espaço desde a sua formulação
e durante o período de execução. Um dos
pontos que demonstra isso, é em relação
à presença dos indígenas enquanto sujeitos
a serem beneficiados pelas ações do Programa.
O Diversidade, na verdade, foi concebido e inteiramente montado
para atender às demandas da população
negra. No entanto, setores ligados à educação
indígena dentro e fora do MEC, entre indigenistas e
o próprio movimento indígena, questionaram o
teor de um programa que, no Brasil, pretendia falar em diversidade
sem beneficiar os povos indígenas. A partir desses
questionamentos, os indígenas foram incorporados ao
projeto do Diversidade na Universidade, mas ele não
foi devidamente adequado para atender às demandas e
especificidades das situações desses povos.
Este foi um tema que gerou uma série de debates e transformações
em relação ao desenho original do Diversidade
ao longo de todo o seu período de existência,
e acompanhou também, de certa maneira, o desenvolvimento
dos debates e das políticas voltados
para o ensino superior indígena.
- No terceiro, procurei pensar o lugar do Programa Diversidade
na Universidade no Ministério da Educação.
O aspecto central aqui foi a criação da Secretaria
de Educação Continuada, Alfabetização
e Diversidade, a SECAD, em 2004, durante a gestão de
Tarso Genro na pasta da Educação. A criação
da SECAD esteve intimamente associada com o Programa Diversidade
na Universidade, pois foi principalmente a partir de recursos
do Programa que a secretaria foi montada, como que respondendo
ao componente do fortalecimento institucional. Além
disso, pode-se dizer que a Secretaria representou, de certa
maneira, uma institucionalização da noção
de diversidade no interior do MEC, na medida em que se criou
uma circunscrição administrativa para se trabalhar
especificamente com esta temática. Este foi o espaço
reservado também para pensar o desenrolar de outras
políticas que foram desenvolvidas no interior do Governo
Federal durante o período em que o Diversidade foi
executado. Afinal, me parecia claro que o Programa tinha sido
desenhado em um momento político que foi se transformando
ao longo dos seus anos de vida, em especial em relação
à questão étnica e racial e ao acesso
ao ensino superior.
Algumas questões de cunho teórico me conduziram
durante a pesquisa, e foram abordadas no capítulo 4.
A primeira delas, diz respeito à noção
de Estado. Partindo do estudo de uma política governamental
que normalmente é encarada como ação
do Estado, ou o Estado em ação, tornou-se fundamental
pensar sob quais perspectivas deveria encarar os atores institucionais
envolvidos. Procurei trabalhar nos termos de processos de
formação de Estado, para me opor aos usos, a
meu ver equivocados, porém bastantes comuns, que encaram
o Estado como uma entidade que paira acima dos indivíduos
e tem vontades próprias estas, por sua vez,
entendidas como finalidades públicas, em nome de um
bem comum. Pretendi também me diferenciar de algumas
leituras que vêem o Estado como mero objeto de dominação
nas mãos das classes hegemônicas e, para tanto,
tomei como aporte uma leitura gramsciana que entende Estado
fundamentalmente como uma relação social.
Foi importante aqui considerar os múltiplos pertencimentos
dos atores sociais envolvidos com a formulação
e a execução da política, formando redes
bastante complexas de serem mapeadas. Procurei pensar como
instituições variadas poderiam atuar na formulação
de tal política, e travei um breve debate sobre sociedade
civil, ONGs e terceiro setor, tentando desfazer as concepções
que pensam em termos dicotômicos sociedade política
e sociedade civil, como se existissem em separado na realidade.
Para a realização deste trabalho, fiz pesquisa
de campo em Brasília, onde pude ter acesso à
documentação e materiais referentes ao Programa
e às instituições envolvidas, e realizar
entrevistas com os principais gestores do Programa no MEC
e no BID.
Faça
o download da dissertação no site
Observatório de Direitos Indígenas é
lançado em Brasília
Será lançado no próximo dia 15 de agosto,
às 17h, o Observatório de Direitos Indígenas
ODIN, no Auditório 2-Candangos, no Campus Universitário
Darci Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB). O
Observatório de Direitos Indígenas, criado através
de uma parceria entre o Centro Indígena de Estudos
e Pesquisas (CINEP) e a Articulação dos Povos
Indígenas do Brasil (APIB), é uma rede articulada
de advogados, bacharéis e estudantes indígenas
de direito, cujo principal objetivo é fortalecer o
conhecimento e a perícia indígena para a defesa
de seus direitos.
O ODIN tem por objetivo instrumentalizar os advogados indígenas
para atuarem junto às comunidades no âmbito local,
nacional e internacional. Além disso, o Observatório
irá apoiar processos de capacitação para
advogados indígenas através de cursos de atualização
jurídica e especialização, oferecidos
pelo CINEP e por instituições de ensino jurídico,
e propiciar intercâmbios nacionais e internacionais
para a formação e aperfeiçoamento acadêmico.
Está entre objetivos do ODIN, ainda, capacitar e articular
observadores e defensores dos direitos indígenas, fortalecer
a aplicação dos direitos costumeiros dos povos
indígenas e criar e manter um banco de dados sobre
a aplicação dos direitos indígenas no
Brasil, entre outros.