Conhecerão, ainda, outro relato também da Dra. Mariana Paladino,
que dá detalhes sobre o seminário "Universidade, povos Indígenas
e educação cidadã em contextos multiétnicos na América Latina",
realizado nos dias 11 e 12 de setembro de 2008, na Escola
Superior de Tecnologia da Universidade do Estado do Amazonas
(UEA).
Trazemos, ainda, o texto "Acesso e Permanência dos Estudantes
Indígenas nas Universidades: Comemoração ou Reflexão?", de
autoria de Edílson Martins – do povo Baniwa, mestrando em
lingüística pela UNB e membro do CINEP - que, como o próprio
autor diz, tem como objetivo fazer algumas reflexões, críticas
e sugestões sobre as políticas e ações existentes para o acesso
e permanência dos estudantes indígenas universitários no Brasil.
Tenha uma boa leitura!
Breve relatório do "Seminário sobre o papel da universidade
e da formação acadêmica sob a ótica das lideranças e acadêmicos
indígenas"
Mariana Paladino
Entre os dias 16 e 18 de setembro, foi realizado o "Seminário
sobre o papel da universidade e da formação acadêmica sob
a ótica das lideranças e acadêmicos indígenas", no Centro
Cultural de Brasília, organizado pelo CINEP em parceria com
a Embaixada da Noruega. O seminário tinha por fim, em vinculação
com a comemoração aos 25 anos de atuação do Programa de Apoio
aos Povos Indígenas da Noruega, dialogar com as experiências
de ensino superior Sami e de outros países da América Latina,
assim como debater sobre a situação no Brasil.
No primeiro dia, durante a cerimônia de abertura, houve a
fala do Primeiro-ministro da Noruega, Sr. Jens Stoltenberg,
do Presidente do Parlamento Sami, Sr. Egil Olli, do presidente
da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Sr. Márcio Meira e
do Diretor do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas (CINEP),
Sr. Gersem Baniwa. Na parte da tarde, houve a apresentação
dos objetivos e das atividades que o CINEP vem desenvolvendo
e também houve a apresentação das demandas do movimento indígena
vinculadas ao ensino superior indígena. Falaram representantes
da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia
Brasileira), da APOINME (Articulação dos Povos e Organizações
Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), da
ARPIN-Sul (Articulação dos Povos Indígenas do Sul), da ARPIPAN
(Articulação dos Povos Indígenas do Pantanal) e da Aty-Guasú.
Mais tarde, houve a fala de Davi Kopenawa, liderança Yanomami,
e de Juarez Fonseca Prado, liderança Terena, sobre o papel
dos jovens e da sua formação escolar para o fortalecimento
do movimento indígena. Avelina Pancho, do povo Nasa, da Colômbia,
falou sobre a situação da educação superior indígena no seu
país e expôs a experiência da criação da Universidade Autônoma
Indígena Intercultural del Cauca (UAIIN), na qual ela participa
como professora e como membro da coordenação. Finalmente,
houve a exibição de um filme Sami, com a presença do diretor,
Nils Gaup, seguido de um debate.
Durante o segundo e terceiro dia, a coordenação
das mesas, relatoria e sínteses iniciais e finais das
discussões e debates esteve sob responsabilidade de
Maria das Dores Pankararu, doutora em Lingüística.
No segundo dia, de manhã, se apresentaram alunos indígenas
da Universidade de Brasília (UnB) relatando a situação
dos acadêmicos indígenas cotistas dessa Universidade,
mostrando dados quantitativos, assim como avaliando o envolvimento
da universidade quanto ao atendimento de outras demandas que
não apenas as do acesso. Depois se apresentaram duas
lideranças indígenas do Equador - Sr. Samuel
Yakum do povo Shuar e Sr. Gilberto Wisum Tsamarin do povo
Achuar - descrevendo as experiências de educação
escolar dos seus povos e analisando a situação
da educação superior indígena naquele
país. Na parte da tarde, expuseram os representantes
do povo Sami: o Sr. Egil Olli apresentou a experiência
do Parlamento Sami e descreveu as políticas públicas
para a educação superior na Noruega; o Sr. Magne
Ove Varsi, coordenador do Centro de Competência Sami,
falou sobre as atividades do Centro e, ainda, a Sra. Marit
Henriksen, pró-reitora da faculdade Sami, relatou as
experiências de ensino superior Sami na Noruega. Por
último, houve a exposição de representantes
de instituições envolvidas com o fomento ao
ensino superior indígena no Brasil: o Sr. Aurélio
Vianna, da Fundação Ford, o Sr. Ivan, da Ong
OPAN (Operação Amazônia Nativa), a Sra.
Nina Paula Laranjeira, Diretora de Programação
Acadêmica da UnB e Arildo Terena, acadêmico da
UEMS (Universidade Estadual de MatoGrosso do Sul), representando
o Programa Rede de Saberes. Não houve representantes
do Ministério da Educação (MEC) e nem
da FUNAI.
No terceiro e último dia, houve a apresentação de alunos da
Universidade Católica Dom Bosco, da Universidade Federal da
Grande Dourados e da Universidade Estadual de Mato Grosso
do Sul que, além de relatarem suas experiências pessoais,
expuseram o perfil dos estudantes indígenas de Mato Grosso
do Sul, com base em um levantamento feito pelo Programa Rede
de Saberes.
Foi organizado, também, um trabalho em cinco grupos para debater
sobre diferentes questões: formação de professores no ensino
superior; acesso e permanência dos estudantes indígenas no
ensino superior; formação superior de indígenas e a relação
com a aldeia; currículo, conteúdo e competências no ensino
superior; e políticas públicas para o ensino superior. Na
parte da tarde, os grupos continuaram reunidos para, por fim,
o coordenador de cada grupo apresentar a síntese das discussões.
Houve um debate geral e em seguida o encerramento.
Participaram no seminário cerca de 100 pessoas: 28 acadêmicos
de Mato Grosso do Sul (da Universidade Estadual de Mato Grosso
do Sul, da Universidade Católica Dom Bosco - UCDB, do Centro
Universitário da Grande Dourados - UNIGRAN e da Universidade
Federal de Grande Dourados), 10 acadêmicos da UnB, jovens
do povo Umutina de Mato Grosso que formam um grupo de teatro
Umutina, cinco representantes do povo Sami, três representantes
de povos indígenas da América Latina, alguns acadêmicos das
regiões Norte, Sul e Nordeste e lideranças de várias organizações.
Destacou-se a participação dos acadêmicos indígenas, tanto
nos espaços estipulados para a exposição, quanto nos espaços
de debate.
Apesar das diferenças e diversidades regionais e étnicas presentes,
evidenciou-se que as dificuldades que os estudantes atravessam
para a permanência na universidade são muito semelhantes.
Entre elas, destacaram-se as de tipo econômico, ou seja, os
problemas enfrentados para se manter na cidade. As bolsas,
tanto as que os acadêmicos recebem da UnB a partir de um acordo
entre esta universidade e a FUNAI, quanto as dos acadêmicos
da UEMS, por parte do governo estadual, foram avaliadas como
insuficientes para atender os custos reais e o índice inflacionário
atual. Também houve acordo em assinalar que as universidades
têm se modificado pouco apesar das políticas de ação afirmativa
que têm implantado, sobretudo no sentido de adequar conteúdos
ou programas, assim como na criação de cursos e reformulação
de metodologias de ensino em consonância com a realidade dos
povos indígenas, suas necessidades e demandas. Ainda foi enfatizado
o escasso ou inexistente acompanhamento social e cultural
por parte da universidade, de forma a garantir a permanência
e o melhoramento da relação dos estudantes com o espaço acadêmico.
Avaliou-se que, até hoje, a principal ação das universidades
está voltada para equilibrar as desigualdades no acesso, mas
pouco tem sido feito para mudar a filosofia e pedagogia individualista
promovida neste âmbito. Também foi colocado que as universidades
oferecem cursos com base em suas idéias e representações,
sem conhecimento do que são as demandas indígenas e sem estabelecer
um verdadeiro diálogo com elas.
Por parte de diversos participantes, ao longo do seminário,
expressou-se uma forte demanda para que os conhecimentos indígenas
sejam incorporados aos programas curriculares da universidade.
Esta apareceu como espaço privilegiado de sistematização,
fortalecimento e resgate dos conhecimentos indígenas. Não
se falou na criação de outros espaços ou instâncias que poderiam
cumprir esta função. Também foi enfatizada a importância de
dialogar com os conhecimentos ocidentais. No entanto, não
se aprofundou sobre como fazer para que esta relação possa
se dar em pé de igualdade e sobre que tipos de conhecimentos
esperam receber da universidade. Falou-se de uma forma bastante
genérica sobre estas questões.
Evidenciou-se uma tensão na vinculação dos acadêmicos indígenas
com as lideranças locais ou tradicionais e a comunidade. Alguns
expuseram a desconfiança que existe por parte delas a respeito
de sua formação, das pesquisas desenvolvidas e do futuro papel
que desempenharão ao se formar. Vários estudantes expressaram
sentir falta de um maior acompanhamento e atenção por parte
das lideranças, de maior apoio enquanto estão longe, estudando.
As lideranças presentes, pelo contrário, sentiram falta de
uma maior participação dos jovens nas organizações e no retorno
à comunidade. No entanto, todos concordaram na importância
de melhorar a relação e o diálogo e aprofundar a vinculação
dos acadêmicos com as demandas e projetos das comunidades.
Breve relatório sobre o seminário "Universidade, povos
Indígenas e educação cidadã em contextos multiétnicos na América
Latina"
Mariana Paladino
Durante os dias 11 e 12 de setembro de 2008, foi realizado
o seminário "Universidade, povos Indígenas e educação cidadã
em contextos multiétnicos na América Latina", na Escola Superior
de Tecnologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA),
coordenado pela Fundación em Contextos de Pluriculturalidad
y Multilingüismo en América Latina (FUNPROEIB-Andes) e pela
Red Internacional de Estudios Interculturales (RIDEI). Representou
o terceiro e último dos seminários, realizados com financiamento
da Fundação Ford, que tiveram como objetivo debater a relação
entre povos indígenas, universidade e cidadania, e instalar
processos de diálogo entre líderes e organizações indígenas,
cientistas sociais, universidades e centros de pesquisa que
participam do desenvolvimento de propostas de cidadania intercultural
e análises das problemáticas socioculturais latino-americanas.
O primeiro seminário foi realizado em Cuzco, em parceria com
o Centro Bartolomé de las Casas, abrangendo países andinos.
O segundo foi na Guatemala, em parceria com a GTZ (Deutsche
Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit GmbH - Cooperação
Técnica Alemã), abrangendo países da América Central e o Caribe.
O seminário, realizado em Manaus, em parceria com a UEA, tinha
por fim discutir e analisar a situação da educação superior
na Região Amazônica (Brasil, Bolívia e Colômbia). Estes seminários
fazem parte do projeto Acciones de Seguimiento Educación Ciudadana
en Contextos Multiétnicos de América Latina, coordenado por
Luis Enrique Lopez e Alvaro Bello.
Participaram do seminário em torno de 30 pessoas. Entre elas,
aproximadamente 15 eram indígenas, lideranças de algumas organizações
indígenas como o Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas
(MEIAM) e a COIAB, e de organizações vinculadas ao governo
(Fundação Estadual dos Povos Indígenas - FEPI, Conselho Estadual
de Educação Escolar Indígena, Coordenação da Educação Escolar
Indígena da SEDUC - Amazonas) e acadêmicos da UEA e da Universidade
Federal do Amazonas (UFAM). Do âmbito acadêmico foram convidados
alguns professores e pesquisadores da Universidade Federal
de Roraima (UFRR), UEA, UFAM e UCDB, envolvidos em programas
e projetos de educação superior indígena (especialmente em
licenciaturas específicas).
Foi notada a ausência de gestores universitários da UFAM e
UEA (à exceção do pró-reitor de extensão) e de funcionários
de alta hierarquia do governo estadual, assim como da FUNAI.
Fizeram-se presentes lideranças da América Latina (Bolívia
e Colômbia), além de representantes do RIDEI e do Proeib-Andes.
No início do primeiro dia, houve várias palestras e na tarde
do primeiro dia e durante todo o segundo dia, se trabalhou
em dois grupos, em modalidade de oficina, para discutir uma
série de questões planejadas na agenda do seminário.
A primeira palestra foi a de Álvaro Bello, coordenador do
projeto junto com Luis Enrique Lopez, quem fez uma síntese
dos seminários anteriores e deu uma série de explicações a
respeito dos objetivos e da dinâmica do seminário atual. A
segunda foi de Santiago Alfaro, representante do RIDEI, apresentando
as atividades e projetos desta rede de universidades. Já a
terceira explanação foi de Guido Machaca, do PROEIB-Andes,
expondo um panorama da situação dos povos indígenas e a educação
superior na América Latina e Caribe. Também houve palestras
de professores universitários brasileiros a respeito das experiências
que vêm desenvolvendo vinculadas à formação de nível superior
de povos indígenas.
No primeiro dia de trabalho em grupo, um deles discutiu sobre
o movimento indígena como novo ator na América Latina e sua
contribuição à redefinição da cidadania; e o outro sobre o
papel da universidade para garantir cidadania no atual contexto
de reconhecimento da multietnicidade na América Latina.
Todos concordaram que nos países da América Latina existem
programas e não políticas interculturais na Educação Superior
(com exceção da Bolívia, onde uma importante reforma educativa
está sendo discutida no Congresso). Só se criam institutos,
grupos de estudo, cursos de pós-graduação, entre outros programas
acadêmicos orientados a incluir à população e cultura indígena
nas universidades, pela iniciativa de alguns professores e
equipes de pesquisa, e o apoio de instituições de cooperação
internacional.
Destacaram-se os debates referentes à situação na UEA e UFAM
em relação às demandas educativas dos povos amazônicos, evidenciando-se
que não há um diálogo entre estas e os cursos que essas universidades
oferecem, a não ser os cursos de licenciatura para professores
indígenas. O sistema de cotas implantado pela UEA foi considerado
insuficiente por apenas garantir o acesso e não ter construído
uma proposta de acompanhamento para facilitar a permanência.
E o acesso também foi questionado, já que as vagas oferecidas
nunca são preenchidas completamente e houve também relatos
que apontaram indícios de corrupção no preenchimento de algumas
vagas. O fato de não se ocuparem todas as vagas foi interpretado
como resultado por um lado, da falta de divulgação desta política
e, por outro, da falta de meios por parte dos que moram em
aldeias para se manter na cidade.
No segundo dia, um dos grupos discutiu o tema da multiculturalidade
e interculturalidade na América Latina e as implicações para
a redefinição da noção de cidadania. Outro grupo debateu sobre
o conhecimento indígena e as responsabilidades das organizações
indígenas e das universidades para garantir a inclusão deste
no espaço acadêmico em pé de igualdade com o conhecimento
ocidental.
No primeiro grupo foi problematizado o fato de que a interculturalidade,
ainda que esteja reconhecida como um direito por parte dos
países representados no seminário, vem sendo aplicada mais
de forma teórica do que prática, tanto pelas políticas de
governo quanto pelas universidades. Também se destacou o fato
de que a interculturalidade ainda permanece fechada às ações
envolvendo povos indígenas, quando toda a sociedade deveria
estar contemplada por esta perspectiva. Chamou-se a atenção
sobre as dificuldades que o movimento indígena tem para efetivar
suas demandas e seus direitos assegurados legalmente e para
a necessidade de redefinir suas relações com o Estado e aprofundar
o debate sobre cidadania e interculturalidade.
O segundo grupo concluiu que o conhecimento tradicional não
é reconhecido dentro das instituições de ensino superior e
a maioria dos professores não está preparada para a troca
e diálogo de conhecimentos. Nesse sentido, destacou-se a importância
de capacitá-los para a tarefa de formar indígenas. Também
chamou-se a atenção para o fato de que já existem pesquisas
e textos elaborados por acadêmicos indígenas vinculados à
sistematização de conhecimentos tradicionais, mas que raramente
são publicados ou têm circulação.
Houve por parte dos presentes uma dificuldade por construir
um debate em torno das questões colocadas na agenda do seminário,
sobretudo no tocante ao papel dos conhecimentos indígenas
na universidade em vinculação e diálogo com os chamados conhecimentos
ocidentais, e à discussão sobre os conceitos de interculturalidade
e de cidadania intercultural. Nesse sentido, evidenciou-se
um contraste entre os depoimentos provindos das experiências
no Brasil e os dos participantes da Bolívia e da Colômbia.
Estes últimos mostraram, por exemplo, estar em um processo
de construção de propostas mais amadurecido por parte do movimento
indígena, como o que se reflete no caso da Colômbia, na criação
da Universidade Intercultural do Cauca, que oferece uma formação
construída em intenso debate e diálogo com as comunidades
de base e é estruturada numa lógica diferente das universidades
tradicionais.
Na declaração final do encontro, colocou-se que os conceitos
de multiculturalidade e interculturalidade devem ser entendidos
e construídos segundo os diferentes contextos regionais e
nacionais, e as ações e programas ditos interculturais, não
devem apenas ficar fechados ao âmbito escolar, mas abranger
outros espaços públicos. Também enfatizou-se que existe muito
a caminhar para garantir a permanência dos acadêmicos indígenas,
e que as organizações indígenas devem avançar na construção
de demandas e propostas e efetivar direitos garantidos no
plano legal. Foi mencionada a criação de um fórum latino-americano
permanente para a construção conjunta de uma proposta de educação
superior intercultural, levando em conta as especificidades
e diferenças regionais e culturais.
Fotos do Seminário

Mesa de encerramento do Seminário: "Universidade, povos Indígenas
e educação cidadã em contextos multiétnicos na América Latina".
Fala dos organizadores do evento: Alvaro Bello (Universidad
Católica de Temuco), Rogelio Casado Marinho Filho (pró-reitor
de extensão da UEA); Guido Machaca (PROEIB Andes), Maxim Repetto
(UFRR) e Libio Palechor (FUNPROEIB Andes).

"Seminário sobre o papel da universidade e da formação acadêmica
sob a ótica das lideranças e acadêmicos indígenas", organizado
pelo CINEP em parceria com a Embaixada da Noruega, realizado
em Brasília - Fala do Primeiro-ministro Norueguês, Sr. Jens
Stoltenberg. Também estão na foto o presidente da FUNAI, Sr.
Márcio Meira; o presidente do Parlamento Sami, Sr. Egil Olli;
e o diretor do CINEP, Sr. Gersem Baniwa
Apresentação de grupo de teatro de jovens do povo Umutina.
Apresentação de grupo de teatro de jovens do povo Umutina.
Apresentação de lideranças indígenas de Equador dos povos
Shuar e Achuar.
Mesa de apresentação de alunos indígenas da UNB
Acesso e Permanência dos Estudantes Indígenas nas Universidades:
Comemoração ou Reflexão?
Autor: Edílson Martins – Baniwa - Em 14.01.2008
Este texto tem como objetivo fazer algumas reflexões, críticas
e sugestões, sobre a política do processo de Acesso e Permanência
dos Estudantes Indígenas Universitários no Brasil.
1. Contexto Político:
Para os Povos Indígenas, a Constituição Federal de 1988 inaugura
uma fase de avanços jurídicos, reconhecendo aos indígenas
os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente
habitam e as "imprescindíveis à preservação física e cultural,
necessárias ao seu bem-estar e à sua reprodução física e cultural,
segundo seus usos, costumes e tradições" (Art. 231). Além
de outros dispositivos jurídicos, a Constituição Federal assinala
ainda que "os índios, suas comunidades e organizações são
partes legítimas para ingressar em defesa de seus direitos
e interesses" (Art. 232).
A luta pela defesa dos direitos e interesses coletivos dos
povos indígenas no Brasil hoje se dá em todos os níveis e
formas de poder (político, técnico, acadêmico, científico,
etc.). O papel de interlocução e a ocupação de espaços políticos
representativos assumidos pelas lideranças indígenas requerem
uma capacidade técnica, política e científica para que essa
interlocução e representação sejam qualificadas, ou seja,
em condições de possibilitar intervenções e mudanças de políticas
desejadas e demandadas pelos povos indígenas.
Nesses vinte anos de rearticulação indígena, muitos resultados
e avanços foram sendo conquistados: a) elevação do nível de
conscientização sobre direitos e potencialidades das comunidades
para solução de problemas locais e com isso potencializou-se
a capacidade de elevar o nível de intervenção junto às diferentes
esferas de poder; b) ocupação de importantes espaços de representação
política (câmaras municipais, prefeituras, estados, Governo
Federal) e controle social (conselhos deliberativos e consultivos
federais, estaduais e municipais relacionados à saúde, educação,
proteção do meio ambiente, etc.).
Na atualidade, o Movimento Indígena Brasileiro, além das demandas
que motivaram o surgimento das organizações indígenas, depara-se
com novos desafios como: temas emergentes como o valor da
biodiversidade na biotecnologia; o significado de "projetos
de criação de corredores ecológicos", os danos da chamada
biopirataria aos conhecimentos tradicionais; a importância
das florestas para implementação de Modelos de Desenvolvimento
Limpo – MDL, autogestão de seus territórios; gerenciamento
de recursos públicos e privados; controle social, participação
e intervenção nas políticas públicas. E, por fim, a capacidade
de dominar a complexidade do mundo branco, a começar pelo
próprio modelo de organização política incorporada pelos povos
indígenas.
Neste sentido, é importante que a atuação das lideranças indígenas
no âmbito das organizações indígenas ou nos espaços públicos
de poder seja cada vez mais qualificada, capaz de contribuir
na melhoria da qualidade de vida das comunidades indígenas
e na defesa de seus direitos. Cabe ressaltar que, para isso,
a estrutura do movimento indígena, configurando uma rede de
organizações, é um fator positivo, mas que ainda precisa ser
melhor potencializado, tanto por meio da capacitação e intercâmbio
de informações entre atores locais que assegurem o fortalecimento
das organizações da qual participam, quanto o ambiente sócio-político
do qual fazem parte.
De fato, a capacitação de seus recursos humanos (lideranças,
técnicos e intelectuais) é a condição para o movimento indígena
continuar avançando na defesa e na garantia dos direitos dos
povos indígenas, e na possibilidade de responder a novas demandas
das comunidades e organizações indígenas. A capacitação de
lideranças indígenas, sobretudo de dirigentes de organizações,
é uma demanda que aumenta em importância na medida do próprio
crescimento e amadurecimento do movimento indígena, na sua
responsabilidade de exercer a interlocução e intermediação
entre as comunidades indígenas e a sociedade nacional e internacional,
tanto na defesa dos direitos indígenas, quanto no acompanhamento
e formulação de políticas que venham atender às suas demandas
reais.
2. Algumas Críticas:
A implantação dos cursos superiores por D. João, a partir
de 1808, vai marcar profundamente os objetivos e práticas
educativas no Brasil. As escolas superiores, em particular,
não foram criadas para produzir conhecimentos científicos
e tecnológicos, visando o bem estar da maioria da população
brasileira (escravos e desempregados), mas sim para repassar
conhecimento adquirido nas grandes metrópoles, aos filhos
de classes privilegiadas, para que eles pudessem assumir cargos
na administração pública da sociedade colonial. Já se passaram
500 anos, e este modelo continua atendendo aos interesses
de empresários dos países colonialistas, a idéia de uma educação
voltada para preparo dos jovens para o mercado de trabalho.
Atualmente, há um número grande de estudantes que recorrem
às universidades, no entanto eles não dispõem das condições
básicas para se manterem nas cidades (despesas com moradia,
alimentação, transporte etc.).
De modo geral as universidades não estão preparadas para oferecer
uma formação que venha a atender aos interesses dos povos
indígenas. Além disso, inexiste uma bibliografia de livros
produzidos por autores indígenas para servirem como base de
consulta e formação.
Os espaços que hoje as universidades estão dispondo para o
acesso e permanência dos índios nas universidades, em minha
opinião, são apenas para equilibrar a política do Estado Brasileiro,
ou seja, tentar tornar os desiguais aos iguais. Hoje, não
se pensa em coletivo e sim no individualismo.
As cotas, ou outros tipos de acesso às universidades, não
resolvem os problemas, pelo contrário, muitas vezes acabam
agravando a situação, pois tiram os índios de suas aldeias
e muitos não retornam. Mas o grande desafio mesmo é a manutenção
física, cultural, lingüística e principalmente econômica,
pois a filosofia e a realidade das universidades são diferentes
das nossas.
3. Algumas Sugestões Gerais:
a) Não se de deve esquecer que, para se chegar a ter hoje
esses acessos, cotas ou vagas para os índios nas universidades,
houve uma grande luta do Movimento Indígena Brasileiro, não
das universidades que hoje dispõem delas e muito menos do
Estado brasileiro, por isso, devem ser valorizadas e reconhecidas
por aqueles que usufruem delas.
b) Deve-se fortalecer ou criar instâncias de controle social,
para que o povo possa cobrar os seus direitos e também possa
participar das discussões e decisões.
c) Faz-se necessário haver e garantir um programa com o devido
orçamento dentro do Plano Plurianual do Estado brasileiro,
para a questão do acesso e permanência dos índios nas universidades.
d) A formação dos indígenas em instituições universitárias
requer um acompanhamento especial, para que no futuro possam
apoiar suas comunidades, do contrário, seguiremos com um paradoxo,
no qual temos uma demanda de profissionais que não é suprida,
e nossos estudantes vão sendo formados em uma direção que
não contempla os nossos interesses. Neste sentido, é importante
que as demandas e áreas de interesse dos jovens estudantes,
acadêmicos e pesquisadores indígenas estejam sincronizadas
com as demandas e interesses das comunidades e do movimento
indígena.
4. Consideração Final:
O domínio maior de novos conceitos e estratégias da sociedade
nacional e mundial possibilitará maior capacidade de gerenciamento
dos problemas que afetam as nossas organizações e comunidades,
principalmente nas tomadas de decisão diante dos conflitos
de interesse próprios do ambiente de contato interétnico,
de modo que os direitos e interesses indígenas sejam respeitados
e preservados.
Enfim, este pequeno texto apresentado aqui não pretende ser
e não poderia ser exaustivo, uma vez que as reflexões, críticas
e sugestões feitas podem ser revistas na medida em que aumenta
o conhecimento sobre a temática. De qualquer forma, tenho
certeza de que este texto poderá contribuir com o Movimento
Indígena, universidades e Estado brasileiro, para se começar
a discutir, aprofundar e buscar formular uma política de Estado
para o acesso e a permanência dos estudantes indígenas no
ensino superior brasileiro.