Trilhas de Conhecimentos - O Ensino Superior de Indígenas no Brasil

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Publicado o livro Movimentos Indígenas e Conflitos Territoriais em Roraima


Foi lançado, pela editora da Universidade Federal de Roraima (UFRR), no último dia 05, o livro Movimentos Indígenas e Conflitos Territoriais em Roraima, de autoria de Maxim Repetto. A obra, que ganhou o primeiro lugar no concurso de teses e dissertações 2007 promovido pela Editora da UFRR, trata dos movimentos indígenas e das lutas pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, entre outros assuntos. 

                 

No ano de 2008, o Núcleo Insikiran de Formação Superior Indígena da UFRR realizou a publicação de importantes títulos relativos à formação superior indígena em Roraima e no Brasil. Estas publicações foram possíveis graças ao apoio do Projeto Trilhas do Conhecimento do LACED/Museu Nacional/UFRJ e da Fundação Ford.

Conheça aqui as obras publicadas.

Quem tiver interesse em adquirir as publicações deve entrar em contato com a Editora da UFRR (editoraufrr@gmail.com) ou pelo telefone 95-3621-3111. Os livros podem ser adquiridos, também, através de pedidos feitos nas livrarias associadas à Associação Brasileira das Editoras Universitárias.


RESENHA

REPETTO, Maxim. 2008. Movimentos Indígenas e Conflitos Territoriais no Estado de Roraima. Boa Vista: Ed. UFRR.

O livro Movimentos Índígenas e Conflitos Territoriais no Estado de Roraima é uma versão revista da tese de doutorado do antropólogo chileno e professor do curso de Licenciatura Intercultural da Universidade Federal de Roraima (UFRR) Maxim Repetto, defendida em 2002, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UnB sob o título: "Roteiro de uma etnografia colaborativa: as organizações indígenas e a construção de uma educação diferenciada em Roraima, Brasil". O autor informa que pretendia, inicialmente, na tese, focar na questão da educação escolar indígena e na atuação das organizações indígenas de Roraima no tocante a esta temática. No entanto, durante o processo da pesquisa, ele avaliou que seria importante primeiro refletir sobre o próprio movimento indígena de Roraima e suas organizações.

Desta maneira, para esta publicação, o autor suprimiu o capítulo de sua tese em que trata da educação escolar indígena, dando ao livro um enfoque completamente voltado para o estudo dos movimentos indígenas daquele estado. A idéia central de Repetto é demonstrar como os movimentos indígenas de Roraima não constituem um todo monolítico – e por isso ele opta por falar em movimentos indígenas, no plural. Ele mostra, a partir de uma pesquisa bastante consistente, que há pelo menos três movimentos indígenas em Roraima: o "movimento pela demarcação de terras contínuas", o "movimento pela demarcação em ilhas" e o "movimento por produção". 

Repetto realizou sua pesquisa entre os anos de 1998 e 2001, período em que atuou também como assessor de diversas organizações indígenas, no que ele caracteriza como sua "experiência antropológica colaborativa junto das organizações indígenas dos povos Makuxi e Wapichana no estado de Roraima" (p. 9). Com a idéia da antropologia colaborativa, o autor quer ressaltar que sua pesquisa, para além dos fins acadêmicos, visava refletir sobre a Antropologia, seus métodos e sua finalidade social, rechaçando as idéias de neutralidade que já marcaram tão fortemente o campo das ciências sociais. O autor propõe uma reflexão sobre a pesquisa antropológica, especialmente em relação aos limites do envolvimento do pesquisador em relação ao seu objeto de estudo e as relações entre "observação" e "participação", um tema recorrente sobre o fazer antropológico. No caso de Repetto, esta discussão tornou-se necessária pelas próprias especificidades de sua experiência, já que atuou como assessor de algumas organizações indígenas, vendo-se envolvido com tais instituições para além dos objetivos da pesquisa. Repetto busca solucionar esta questão a partir de uma opção bastante clara de realizar uma "antropologia colaborativa" com os movimentos sociais, procurando dar conta de sua atuação tanto como pesquisador quanto como ator social. Nas palavras do autor: "(...) assumo minha responsabilidade neste trabalho, que busca ser não apenas uma experiência acadêmica, e sim uma experiência de vida, em que se busca tornar os estudos sociais um meio de colaborar com a sociedade." (p. 21)

Desta maneira, Repetto presta-se a debater também os papéis que vêm assumindo os antropólogos nos debates sobre demarcação de terras indígenas no Brasil e, notadamente, no caso específico de Roraima. Muitos destes pesquisadores produzem estudos e relatórios a partir da manipulação de métodos e técnicas provenientes da Antropologia para justificar a invasão de terras indígenas por não-índios, mascarando posturas e interesses eminentemente políticos, sob um discurso que se pretende "cientificamente" embasado.

Para apresentar ao leitor seu estudo sobre os movimentos e organizações indígenas de Roraima, Repetto traça no primeiro capítulo do livro o contexto histórico e político do estado, retomando alguns acontecimentos importantes desde o século XVIII, quando chegaram os primeiros colonizadores na região, até período recente. Ao abordar a situação política do estado atualmente, o autor procura caracterizar as diversas atuações dos grupos políticos que se revezam no poder, especialmente no que diz respeito às relações que estabelecem com os povos indígenas. Desta forma, contesta as visões do senso comum e de pesquisadores que entendem que as políticas indigenistas contam, normalmente, com três atores sociais distintos – o Estado, a Igreja e os índios –, indicando que tal esquema não daria conta da realidade complexa de Roraima. Para embasar seu argumento, demonstra que missionários católicos de diversos setores da Igreja Católica, e missionários evangélicos, tiveram atuações bem variadas junto aos indígenas, do mesmo modo que os grupos políticos que ocuparam a administração pública no estado de Roraima.

Depois de demonstrar quão complexo é o mapa das instituições que se relacionam com os povos indígenas de Roraima, Repetto se dedica à análise dos usos dos termos "projeto" e "desenvolvimento" no âmbito dos movimentos indígenas do estado. O autor demonstra como os usos destes dois termos são variáveis e reveladores de concepções diversificadas que embasam tanto as políticas indigenistas quanto as políticas indígenas na atualidade. 

Ao perceber os usos constantes do termo "projeto" no mundo das organizações indígenas, o antropólogo identifica a consolidação de um verdadeiro "mercado de projetos" (p. 74), que tem tido uma demanda crescente e a participação ativa de organismos de cooperação internacional. Desta forma, instituições de caráter diverso – tanto na esfera dos governos federal, estadual e municipal, quanto de organizações não-governamentais – disputam as fontes de financiamento e também outras "benesses" que têm a ver com o poder político que se pode angariar a partir da execução de um "projeto" voltado para os povos indígenas da região. Repetto avalia que este "mercado de projetos" se relaciona com mecanismos de dominação que atualizam práticas assistencialistas e tutelares, ainda que possa algumas vezes trazer benefícios concretos aos indígenas.

Associado aos "projetos" está sempre o termo "desenvolvimento", que é também objeto de análise por parte do autor. Ele constata que todas as organizações indígenas têm como um de seus importantes objetivos alcançar o "desenvolvimento" de suas comunidades. No entanto, para cada setor do movimento indígena, tal expectativa deve ser concretizada de uma forma diferente: para uns, o "desenvolvimento" está estritamente associado ao acesso à terra e às possibilidades de vivência plena de seus modos de vida; para outros, "desenvolvimento" significa estar em contato com o mundo dos "brancos", com o mundo da produção. 

De outro lado, o termo "desenvolvimento" é associado ao crescimento econômico do estado, que pode ser alcançado a partir da ação de garimpeiros e de produtores rurais, bem como da construção de hidroelétrica, de modo que os povos indígenas e suas terras são vistos como verdadeiros entraves.

Constatando os diversos significados que ganha o termo a depender de quem o utiliza, e embasado em autores da chamada antropologia do desenvolvimento, Repetto conclui que a idéia de "desenvolvimento" está estritamente associada a uma noção de dominação: "É por esse motivo que os grupos políticos disputam não apenas o domínio das redes de poder, mas disputam, sobretudo, o privilégio de trazer projetos de desenvolvimento, que impõem formas de produção econômica e práticas culturais que se destinam a preservar os mecanismos de controle social, de acumulação da riqueza e exclusão de pessoas, de direitos e de conhecimentos". (pp. 87-88).

Estes diferentes significados e usos dos termos "projeto" e "desenvolvimento" são o ponto de partida de Repetto para caracterizar a diferença de posições entre as organizações indígenas que defendem a demarcação de terras contínuas, as que defendem a demarcação em ilhas e aquelas mais direcionadas para a questão da produção. A análise das organizações indígenas e de suas formas diversas de atuação é completada pelos anexos do livro, que trazem tabelas bastante elucidativas, descrevendo os principais movimentos e organizações indígenas de Roraima.

Sem dúvidas, o livro traz uma abordagem bastante interessante para a compreensão dos movimentos indígenas de Roraima, mas também do Brasil como um todo. Principalmente em um momento delicado como o atual, em que veremos ser julgada no STF uma contestação à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, situação que produzirá, sem dúvidas, resultados muito importantes para os povos indígenas de todo o país, bem como para toda a sociedade.

Nina Paiva Almeida
Outubro/2008
Mestre em Antropologia pelo PPGAS/Museu Nacional e pesquisadora associada do Projeto Trilhas de Conhecimentos




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