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Entrevista com Gersem José dos Santos Luciano Baniwa,
Diretor-presidente do Centro Indígena de Estudos
e Pesquisas – CINEP, antropólogo e representante
indígena no Conselho Nacional de Educação
a Trilhas de Conhecimentos.
Brasília, 30 de janeiro de 2008.
Trilhas: Como você, na qualidade de representante
indígena no Conselho Nacional de Educação
e de Antropólogo, vê a situação
da educação indígena no Brasil?
Gersem: Tivemos
alguns avanços importantes nos últimos anos
em diferentes níveis, em função de
muita articulação e pressão, o que
provocou mudanças importantes no cenário da
inclusão indígena em diferentes níveis
de ensino, e acho que essa incursão traz também
novos desafios. Se por um lado, hoje, temos essa conquista
quantitativa, e no caso do ensino superior a estimativa
é de que existam 5.000 índios cursando ou
que já tenham concluído, por outro lado, acho
que temos o desafio de dar qualidade à inserção
dos indígenas na educação escolar,
assim como nas outras modalidades. Eu tenho a impressão
de que essa conquista quantitativa encobriu a tarefa de
dar qualidade a esse processo de inclusão dos indígenas,
sobretudo no ensino superior. Então se discute muito
o número, mas muito pouco a qualidade. Nos últimos
dois anos, por exemplo, com certeza teve até um retrocesso
na qualidade enquanto educação específica,
diferenciada para indígenas. Pouca gente fala disso,
inclusive os próprios indígenas, que muitas
vezes estão interessados em quantidade, mais estudantes,
mais alunos indígenas, em diferentes níveis.
Curiosamente, eu acho que nós temos o desafio do
ensino médio, o que também tem a ver com qualidade,
mas com oferta, porque hoje tem um crescimento muito maior
de oferta no ensino superior do que no médio, o que
eu acho um enorme desafio para os próximos anos.
Trilhas: O que mudou, do seu ponto de vista, desde
a entrega do “MANIFESTO EM FAVOR DE UMA EDUCAÇÃO
ESCOLAR INDÍGENA DE QUALIDADE”1 para o ministro
Fernando Haddad. O que de concreto aconteceu de lá
para cá?
| Gersem:
Acho que o manifesto veio num momento de total inércia
do MEC em relação à educação
escolar indígena, em um período bastante
rico de oportunidades na área da política
brasileira, quando todos os ministérios estavam
formulando e discutindo políticas, no âmbito
dos recursos do PAC. O primeiro resultado foi provocar,
colocar na agenda do ministério a educação
escolar indígena. Isso sem dúvida nenhuma,
até porque o manifesto foi entregue diretamente
ao ministro da educação e aos diversos
secretários, o que produziu, de certa maneira,
um debate interno no MEC. Enquanto resultado concreto,
embora não muito ou quase nada discutido com
os índios, o que é um problema sério
na atual política do ministério em relação
aos povos indígenas, foi esse arranjo de uma
nova forma de pensar e de administrar a educação
escolar indígena, por meio de outra relação
com os estados e municípios, o Plano de Ações
Articuladas – PAR. Pessoalmente, enquanto concepção,
eu creio ser uma decisão acertada, porque eu
sou das pessoas que não acreditam muito em Papai
Noel, quer dizer, acho que não adianta concentrar
esforços e cobrar apenas responsabilidade da
União, sem envolver municípios e estados.
Afinal de contas, os cidadãos indígenas
não estão pendurados em algum lugar no
espaço com relação direta com a
União, eles estão em territórios
localizados em municípios e estados, e têm
uma longa história de relação com
eles e, bem ou mal, em algumas situações
menos, em outras mais complicadas. Para superarmos qualquer
política de exclusão, de discriminação,
de anulação de ações, temos
que começar com municípios e estados.
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Portanto, forçar o envolvimento de municípios
e estados não é uma coisa ruim, mas sim uma
coisa positiva, só tem que ver como é que se
faz isso. Eu acho que é o que nesse primeiro momento
estamos cobrando, e isso pode ser o segundo passo depois desse
início provocado pelo manifesto, que deve ser conversado
com o MEC. Quer dizer, é para envolver municípios
e estados, mas também não pode ser feito sem
o envolvimento dos povos indígenas, porque senão
vai surtir menos efeito. Hoje a política do MEC é
institucionalizar a educação, mas sem a participação
indígena, o que eu acho que é um erro que pode
dificultar muito mais o processo.
Trilhas: Nesse cenário, quais as perspectivas que
você vê para o ensino médio e para a
educação superior para os indígenas
no Brasil? Como você vê as ações
do governo e as posturas do movimento indígena nessas
duas questões?
Gersem: A postura dos índios
me preocupa, porque em relação à educação
a tendência é que o movimento político
indígena, de uma maneira geral, e não estou
me referindo, por exemplo, ao movimento de professores indígenas,
tem uma postura de inércia. Porque a educação
para o movimento político indígena não
é tão prioritária, tão emergencial,
porque existem outras demandas muito mais graves para se
ocupar do que educação, como por exemplo,
a questão fundiária, ainda, e a saúde.
Então isso continua fazendo com que a educação
escolar indígena seja tratada por professores, e
eu acho que mesmo a articulação de professores
tem se enfraquecido bastante nos últimos anos por
várias questões. Mas há também
um sinal de que o movimento indígena pretende se
ocupar mais dessa pasta, então acho que é
preciso pensar e fortalecer outros mecanismos de articulação
e de pressão para além das atuais organizações
do movimento e, sobretudo, de articulações
de professores. Para isso foi pensado o Centro Indígena
de Estudos e Pesquisas - CINEP, para aglutinar mais, nem
de um lado só os professores, e nem do outro com
as lideranças e organizações indígenas,
mas criar uma articulação indígena
brasileira para estar dialogando e tratando dessa questão
com os governos. Já por parte do governo, a perspectiva
é óbvia. Primeiro, acho que vai ter que se
restabelecer um diálogo transparente, mas ao mesmo
tempo maduro com os povos indígenas. Nós estamos
há dois anos com esse diálogo quebrado, inviabilizado
por várias razões, e de certa maneira é
necessário pensar melhor um programa, uma política
de educação escolar indígena que acho
que ainda não temos no Brasil, principalmente para
o ensino médio e para o superior mais especificamente,
seja em termos de diretrizes, mas também de políticas
de financiamento, de assistência técnica e
até de pessoal. Eu acho que o ensino fundamental
tem avançado nestes aspectos, mas os ensinos médio
e superior ainda carecem disso, então é preciso
que seja formulado. Agora, a formulação de
uma política mais consistente depende também
da capacidade de envolver nesse processo os povos indígenas.
Trilhas: Há quem diga que os gastos com educação
superior de indígenas são elevados demais,
uma versão do “muita terra para pouco índio”,
isto é, seria muito dinheiro para pouco índio
num país com tantas desigualdades, com tantas pessoas
necessitadas, em especial no caso dos cursos de formação
específica. Quais seriam as principais necessidades
dos estudantes indígenas que freqüentam o ensino
superior e no que isso pode orientar uma planificação
e gastos mais lúcidos?
Gersem: Eu não vejo
outra saída que não seja convencer governos,
o Estado, da necessidade desse tratamento diferenciado,
inclusive orçamentário, se efetivamente quisermos
trabalhar a educação escolar indígena
em todos os seus níveis, mais particularmente no
ensino superior, na perspectiva da interculturalidade. Não
há outra maneira senão ter recursos muito
superiores ao que a média do custo dos alunos brasileiros,
porque se trata de além de fornecer formação
de qualidade, na modalidade do que é mesmo a experiência
acadêmica, em também incluir o tratamento específico.
Temos que garantir que os estudantes indígenas ao
mesmo tempo em que se apropriem dos conhecimentos científicos,
técnicos e acadêmicos, também permaneçam
inseridos em seu universo sócio-cultural, comunidade
de origem e de comunicação, forma de viver
e, inclusive, nos centros urbanos, precisam ser tratados,
sobretudo orientados. Então acho que isso requer
um investimento evidentemente maior. Do contrário,
a equiparação, a isonomia em termos orçamentários
para o tratamento do estudante indígena e do não-indígena,
não vai permitir uma formação qualificada,
com essa especificidade própria. Vamos formar praticamente
indígenas para não serem indígenas,
para não atuarem em suas comunidades. Acho que isso
é uma questão séria, central, ao se
discutir políticas para o ensino superior de indígenas.
Não vejo outra saída. Agora, é difícil
convencer a sociedade, sobretudo o gestor público,
que continua a fazer essa equiparação do custo
do aluno, mas sem levar em conta essas questões.
Não é apenas a realidade dos índios,
que têm que se deslocar por longas distâncias
das aldeias para ir onde estão os centros universitários.
Não é só isso. A própria diferença
cultural exige muito mais investimento, precisa de orientação
pedagógica, tutoria. Os estudantes deveriam ter um
período de adaptação, não só
em termos de uma instituição, que já
é complexo em si, mas um período de adaptação
inclusive cultural, para entender o que é uma universidade,
para diminuir os choques culturais, de concepções
e até de conhecimentos, que ocorrem muito com os
estudantes indígenas. Afinal de contas, você
chega à universidade onde serão transmitidos
valores e conhecimentos que se chocam com seu mundo, que
põem em cheque vários valores e saberes, a
menos que seja possível conviver com dois mundos,
com dois valores, ou com diversos valores, o que é
muito difícil. Eu acho até que para essa preparação
exige-se um processo de acompanhamento, com mais tempo,
com mais pessoas, o que requer mais recursos. Não
tem outro caminho. Tem que ser feito para diminuir as principais
dificuldades que todos os alunos enfrentam, inclusive as
que são geralmente citadas pelos alunos de ordem
mais material, como alimentação, estadia,
e que são em grande parte conseqüência
disso, porque a cidade é um outro mundo.
Trilhas: Enquanto representante indígena no Conselho
Nacional de Educação você sabe quantas
são as universidades federais que aderiram ao projeto
do REUNI? Dentre essas, você sabe quais contemplaram
orçamentariamente os alunos indígenas de seus
estados nos projetos apresentados?
Gersem: Infelizmente eu ainda não tenho esses
dados. Sabemos que tratar orçamentariamente os índios
tem sido muito difícil, mesmo após o REUNI,
mas são informações ainda muito gerais.
Acho que existe ainda uma resistência muito grande
das universidades tratarem a formação, a entrada
dos indígenas nas instituições, dentro
daquilo que é reservado, de certa maneira, à
universidade como um todo. Ainda há uma persistência
das instituições em considerarem a entrada
do índio como apenas uma oportunidade de conseguirem
mais recursos, quer dizer, sempre recursos extras. Caso
não venham recursos extras por outros convênios,
por outros acordos, continua como se não tivesse
recursos para os indígenas. Isso sim, acho que é
uma coisa que ainda impera na maioria do pensamento dos
gestores universitários.
Trilhas: Como você percebe o papel dos representantes
indígenas no Conselho Nacional de Educação,
no caso, situados na câmara de educação
básica para o avanço da educação
indígena em geral e, em especial, da educação
superior para os povos indígenas? O que você
acha que avançou e o que mais pode vir a avançar
nessa instância pela representação do
movimento indígena?
Gersem:
Eu acho que uma primeira conquista é o espaço
em si, o simples fato de ter um representante indígena,
que dá visibilidade ao tema e ao segmento social
indígena numa instituição histórica,
que de certa maneira espelha muitas vezes a cara da sociedade
brasileira comandada por segmentos minoritários,
mas de elite. A própria presença do indígena,
assim como a do representante negro, que são representações
recentes, muda bastante a percepção do Conselho,
da própria instituição e dos seus membros.
Por outro lado, essa presença evidentemente produz
um debate, um diálogo. Isto gera um conhecimento
maior sobre a realidade, a demanda, sobre o contexto indígena
dentro da instituição, do governo, mas principalmente
no Ministério da Educação. É
importante estar entre os conselheiros que, de certa maneira,
fazem a política de educação brasileira
e em sua grande maioria têm tarefas importantíssimas,
são secretários municipais e estaduais de
educação, ministros, ex-ministros, secretários
ministeriais, representantes de instituições
extremamente importantes, que definem a política
educacional brasileira. Agora, eu acho que têm conquistas
pequenas ainda, eu mesmo como representante do Conselho
gostaria de poder avançar muito mais, mas temos sérias
limitações. Primeiro que o próprio
papel institucional do Conselho é muito limitado
à normatização de leis já existentes.
Ele não tem a prerrogativa, digamos assim numa linguagem
simples, de se meter em questões que não sejam
regulamentar normas. Não pode propor políticas,
não é sua função, o que para
mim é uma enorme limitação, e é
diferente de outros conselhos, como o Conselho Nacional
de Saúde, que até formula políticas
e discute orçamento. No Conselho Nacional de Educação
nada disso é possível, pela sua própria
característica, pela sua própria missão
institucional. Isso dificulta muito. Gostaria de um Conselho
onde a gente pudesse discutir todos os problemas da educação
brasileira e pudesse ajudar a formular saídas, soluções,
alternativas, há uma grande limitação.
Por outro lado, no campo das normas nós ainda temos
muito por fazer. Até hoje, por exemplo, em termos
de orientação político-pedagógica
da educação escolar indígena, nós
só temos o ensino fundamental regulamentado, basicamente
de primeira à oitava série, por meio de diretrizes
e parâmetros, mas para todos os outros segmentos não
temos. A educação infantil é um enorme
problema hoje, porque não temos nenhuma orientação
pedagógica, nenhuma diretriz, nenhum parâmetro
definido por alguma instância superior como o Conselho
Nacional de Educação. A mesma coisa acontece
no ensino médio, que não tem nenhuma diretriz
que dê conta disso, então as instituições,
os sistemas de ensino, vão formulando e oferecendo
educação infantil e ensino médio conforme
as suas convicções, conforme entendem, não
há nenhuma orientação para isso. Só
isso já é uma grande tarefa para o Conselho,
sem falar do ensino superior, de formação
de professores, que precisam ter uma orientação.
Por que isso é dificultoso? Porque o Conselho não
tem as condições operacionais para produzir
discussões que resultem na normatização
dessas diretrizes, depende muito do Executivo, portanto
do Ministério da Educação, especificamente
hoje da SECAD e da Coordenação Geral de Educação
Escolar Indígena. O Conselho não tem recursos,
por exemplo, para chamar os índios e debater esses
assuntos, a partir do que poderiam ser gerados novos procedimentos
de regulamentação, novas diretrizes, e o MEC
também não tem. Com isso ficamos duplamente
prejudicados. Primeiro, temos a nossa limitação
em função da própria missão
institucional como Conselho e, segundo, para poder estabelecer
diretrizes e normas há sempre a necessidade de conversar
isso com a sociedade, com as comunidades, e o Conselho não
tem recursos para isso, dependeria do MEC, mas o ministério
também não tem. Então, acho que fica
bastante prejudicada a atuação da representação
indígena no Conselho. Mesmo assim acho que essa presença
é fundamental para dar essa visibilidade e poder
permanentemente, produzir a discussão, o debate e
o acompanhamento das políticas, isso efetivamente
acontece. Depois da reunião da câmara de educação
básica que conseguimos fazer em uma terra indígena,
mudou completamente a visão, a percepção
dos membros do Conselho em relação a isso.
Eu diria que hoje nós temos o Conselho como um aliado
nos vários sonhos, ideais, perspectivas, desejos,
vontades dos povos indígenas. Mas entre ser aliado
e ter boa vontade, os instrumentos para a gente, mesmo no
campo da normatização, são dificultados
por essas questões operacionais, financeiras, e pela
limitação da nossa própria missão.
Daí a necessidade de pensar no futuro um controle
social mais efetivo, que não seja apenas de normatização
para o campo da educação brasileira de maneira
geral, mas principalmente para a educação
escolar indígena.
Trilhas: Na qualidade de integrante do Centro Indígena
de Estudos e Pesquisas - CINEP, como você vê
as perspectivas para educação de indígenas
e, em especial, para a educação superior de
indígenas no ano de 2008? Quais os prognósticos
para esse ano que está começando?
Gersem: Nós
estamos concentrando esforços em 2008 para, primeiro,
tornar o CINEP uma referência para o debate e discussões
que têm a ver com a formulação de políticas
para a educação escolar indígena, mas
muito particularmente para o ensino superior. Depois de
2006 e 2007, iniciada a articulação da rede,
nós temos condições de, em 2008, começar
a desenvolver algumas ações concretas para
isso, o que é fundamental. As ações
do governo são resultantes das correlações
de força, então se os índios não
se mobilizam, não se habilitam, não se capacitam
para fazer o diálogo e interlocução
e, nos momentos necessários, pressão e mobilização,
não se pode esperar muitos avanços. Em relação
à educação superior, eu vejo como uma
grande esperança, porque para mim, educação
escolar, seja ela qual for a qualidade, é sempre
algo que contribui, eu digo pela minha própria experiência.
Eu estudei no ensino básico de pior qualidade, do
ponto de vista cultural, intercultural. No entanto, conseguimos
aproveitar essa educação que culturalmente
era perversa para os nossos povos e para nós, como
algo positivo, que nos ajudasse a lutar pelos nossos direitos.
A chegada dos indígenas no ensino superior vai mudar,
de algum modo, a configuração do movimento
indígena, a correlação de forças
com os outros segmentos sociais e com o governo, e eu não
tenho dúvida de que irá ser para melhor. Agora,
será muito melhor se nós tivermos condições,
e essa é um pouco a missão do CINEP, de dar
uma boa formação de qualidade, seja isso dentro
da academia ou fora. Se a academia não é capaz
de dar uma educação, uma formação
de qualidade, o CINEP, outras organizações
indígenas e os aliados e parceiros podem contribuir
complementarmente para que essa formação ganhe
qualidade e, nesse sentido, qualidade é entendido
como o que seja útil e responda às demandas
e necessidade das comunidades e povos indígenas do
Brasil
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